Índia revive antigas tecnologias de abastecimento de água para combater a crise hídrica

Ao longo de séculos, as comunidades indianas desenvolveram métodos para coletar, armazenar e infiltrar a água da chuva. Contudo, com a modernização das redes de abastecimento e o crescimento urbano, muitos desses sistemas acabaram sendo abandonados. Atualmente, algumas dessas antigas estruturas estão sendo revitalizadas para lidar com um problema crescente: a escassez de água.

Uma pesquisa divulgada em 2026 na revista Water History investigou 35 sistemas tradicionais de fornecimento de água em Jaipur. O estudo revelou que a urbanização e a substituição dos métodos descentralizados por redes centralizadas contribuíram para o desaparecimento dessas construções. Os autores sugerem que algumas dessas estruturas poderiam ser reintegradas à gestão hídrica nas cidades, servindo inclusive como meios de recarga dos aquíferos.

No estado do Rajastão, um exemplo notável é o Moosi Rani Sagar, um reservatório que foi erguido no início do século XIX e que voltou a reter água após décadas de abandono. Em 2025, pela primeira vez em mais de três décadas, o nível das águas transbordou para as calçadas, conforme relatado pela BBC.

A água capturada no reservatório passa por um canal com poços destinados à recarga e por um tanque sedimentador antes de ser acumulada novamente. Até 2021, os níveis de água eram irregulares e apresentavam alta contaminação. Com os esforços de recuperação, agora a profundidade atinge cerca de 9 metros.

A experiência em Alwar não é única. Em várias partes da Índia, comunidades têm se dedicado à restauração de estruturas tradicionais, conhecidas por nomes como baori, johad, kund, tanka e nadi.

Ainda que apresentem formatos e propósitos distintos, muitas dessas construções compartilham um princípio fundamental: reduzir a velocidade do escoamento da água da chuva, permitindo que uma parte dela se infiltre no solo e contribua para a recarga dos aquíferos.

Dentre essas estruturas, as baoris (ou stepwells) são particularmente impressionantes. Essas grandes edificações subterrâneas possuem escadas que levam até a água. Milhares delas foram erguidas entre os séculos VII e XIX e ainda podem ser vistas em diversas regiões do país; algumas passaram por restaurações nas últimas décadas.

Por outro lado, não é necessário construir grandes obras. Os johads, por exemplo, são pequenas barragens feitas de terra comumente em formato semicircular, destinadas à retenção temporária das águas das chuvas durante a monção. Esse armazenamento prolongado permite que a água tenha mais tempo para infiltrar-se no solo e recarregar os lençóis freáticos.

A recuperação desses sistemas teve início em Alwar nos anos 80. O médico ayurvédico Rajendra Singh chegou à região em 1985 com o objetivo de abrir uma clínica; no entanto, ao ouvir relatos dos moradores de Gopalpura sobre a grave falta d’água enfrentada pela comunidade, ele iniciou esforços para construir e restaurar johads, em colaboração com a organização não governamental Tarun Bharat Sangh.

Com a chegada da monção em 1986, um dos reservatórios recuperados encheu e poços que estavam secos há anos voltaram a ter água. Esse modelo inspirou outras comunidades da região.

No período entre 1994 e 2007, mais de 10 mil estruturas para captação de água foram estabelecidas na área de Alwar, segundo informações da BBC. Esse esforço resultou na revitalização do fluxo contínuo de cinco rios anteriormente sazonais e beneficiou aproximadamente 250 vilarejos.

Cenário Nacional

A revitalização dessas construções ocorre em um contexto onde o país enfrenta sérios desafios relacionados à escassez hídrica. A Índia abriga cerca de 18% da população mundial enquanto dispõe apenas de aproximadamente 4% dos recursos hídricos globais. Ademais, quase 70% das precipitações anuais concentram-se em apenas três meses do ano, tornando crucial o armazenamento e infiltração das águas pluviais.

Dados do Banco Mundial indicam que a disponibilidade hídrica per capita na Índia caiu pela metade desde 1970.

A situação também se reflete nas estatísticas sobre águas subterrâneas. Segundo informações do Central Ground Water Board (CGWB), órgão governamental indiano responsável pelo monitoramento dessa questão, a extração anual atingiu 245,64 bilhões de metros cúbicos em 2024.

Deste total, a agricultura foi responsável por 87%. No mesmo levantamento,751 das 6.746 unidades avaliadas no país foram categorizadas como áreas com exploração excessiva, ou seja, locais onde a retirada supera a capacidade anual estimada para recarga das águas subterrâneas.

<pÉ nesse contexto desafiador que as estruturas ancestrais assumem nova relevância. Ao invés de depender exclusivamente de grandes projetos ou aumentar a extração das águas subterrâneas, os esforços voltados à recuperação dos sistemas tradicionais visam trabalhar com o ciclo natural da chuva: captar, armazenar, desacelerar o escoamento e estimular a infiltração no solo.

A política pública na Índia também tem incorporado iniciativas visando à participação comunitária na conservação hídrica. Em 2024 foi lançado o programa Jal Sanchay Jan Bhagidari, focado na construção de estruturas acessíveis para armazenamento e recarga de águas subterrâneas além da recuperação dos poços existentes.

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