Entre 1996 e 2024, a quantidade de jumentos no Brasil sofreu uma impressionante redução de 94%, impulsionada pelo aumento do abate desses animais para atender à demanda internacional por peles. Esse alarmante cenário mobilizou cientistas brasileiros e de outros países em uma campanha contra essa prática, que, segundo os especialistas, coloca em risco a sobrevivência das populações restantes e apresenta perigos sanitários para o país.
Nesta quarta-feira (30), pesquisadores compartilharam vídeos em suas redes sociais com o intuito de conscientizar a sociedade sobre essa questão. As peles dos jumentos são majoritariamente enviadas para a China, onde são utilizadas na produção do ejiao, um produto da medicina tradicional chinesa que é feito a partir do colágeno extraído desses animais.
Dados obtidos através da FAO, IBGE e Agrostat evidenciam a gravidade da situação: se antes havia 100 jumentos no Brasil há cerca de trinta anos, hoje restam apenas seis.
Os especialistas ressaltam que essa atividade não se assemelha à pecuária tradicional. Os jumentos são capturados em diversas regiões do Nordeste e transportados para fazendas de confinamento e frigoríficos. A baixa taxa de reprodução e o longo período gestacional, que dura cerca de 12 meses, dificultam a recuperação do rebanho.
A questão sanitária também é motivo de preocupação. Pesquisadores indicam a falta de dados sobre a origem, saúde e movimentação dos jumentos, o que pode complicar o controle de agentes infecciosos. Entre os riscos apontados está o mormo, uma doença que afeta equídeos e pode ser transmitida aos humanos.
Outro ponto crítico envolve potenciais resíduos químicos nos animais. Investigações realizadas em outros países detectaram a presença de chumbo e arsênio em tecidos de jumentos, embora ainda não haja estudos suficientes para confirmar se esses elementos estão presentes nos jumentos abatidos no Brasil.
A discussão já tomou rumos legais. Em abril, a Justiça Federal determinou a proibição do abate de jumentos, mulas e bardotos na Bahia, decisão que ainda pode ser contestada por meio de recursos.
No âmbito legislativo, há iniciativas visando estender essa proibição para todo o território nacional. Simultaneamente, pesquisadores da UFPR estão desenvolvendo uma técnica inovadora de fermentação precisa que possibilitará a produção de colágeno proveniente de jumento sem necessitar do abate dos animais.








