Estar saudável nem sempre é sinônimo de estar livre de problemas. Existem doenças que se manifestam de forma silenciosa, podendo evoluir por meses ou até anos sem apresentar sinais evidentes, enquanto mudanças sutis já podem afetar órgãos, vasos sanguíneos, nervos ou a visão. Portanto, é fundamental realizar acompanhamento médico e os exames recomendados para cada indivíduo, mesmo na ausência de queixas.
A falta de sintomas pode gerar uma falsa sensação de tranquilidade. Em determinadas condições, quando os sinais finalmente se tornam visíveis, a doença já pode ter causado prejuízos que poderiam ter sido minimizados ou evitados com um diagnóstico e acompanhamento precoces.
Entre as enfermidades que podem passar despercebidas estão o diabetes, algumas doenças autoimunes e problemas oculares como glaucoma e retinopatia diabética.
Além disso, o tabagismo requer atenção especial: além dos problemas respiratórios, o uso do cigarro está relacionado a alterações no sistema cardiovascular que podem levar a infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta que o tabagismo está vinculado a aproximadamente 50 doenças, como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), patologias cardiovasculares e diversos tipos de câncer.
Avanços silenciosos do diabetes
O diabetes é um exemplo clássico de doença que pode permanecer sem ser diagnosticada por longos períodos. Níveis elevados de glicose no sangue podem causar danos progressivos aos vasos sanguíneos e afetar órgãos como rins, olhos e nervos.
A questão vai além da glicemia elevada. O cirurgião vascular Dr. Afonso Cesar Polimanti, membro da Comissão de Pé Diabético da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular em São Paulo (SBACV-SP), alerta que o diabetes também pode prejudicar a microcirculação e a rede vascular que alimenta os nervos das extremidades.
“O diabetes tem a característica de comprometer a microcirculação, levando ao fechamento dos capilares. Isso pode ocorrer na circulação das pernas, semelhante ao efeito nocivo do tabagismo ao longo da vida. Esse processo também afeta a rede responsável por nutrir os nervos das extremidades, dificultando a sensibilidade nos pés”, explica o especialista.
A diminuição da sensibilidade aumenta o risco de pequenas lesões passarem despercebidas. A situação se agrava ainda mais quando o diabetes provoca problemas visuais.
<p“É preocupante pensar na dificuldade que uma pessoa pode ter para notar uma ferida no pé se não sente dor e tem dificuldade em enxergá-la ao olhar para baixo. Assim sendo, monitorar rigorosamente o diabetes é crucial”, ressalta Polimanti.
Dentre as complicações associadas está a retinopatia diabética, que pode não causar perda visual nas fases iniciais. O Ministério da Saúde enfatiza que a triagem oftalmológica em pacientes diabéticos é fundamental para possibilitar diagnósticos rápidos.
Para Polimanti, manter a glicose dentro dos níveis recomendados, seguir uma dieta balanceada, praticar exercícios físicos e manter consultas regulares com médicos são ações essenciais para retardar a evolução da doença.
Sintomas comuns podem indicar doenças autoimunes
Sintomas como fadiga constante, dores corporais, febre leve, alterações na sensibilidade e mudanças na visão podem ser interpretados como simples sinais de cansaço ou estresse. Entretanto, esses sintomas podem estar associados a doenças autoimunes em que o sistema imunológico ataca tecidos próprios do corpo.
Dentre essas condições está o lúpus, uma doença capaz de afetar diversos órgãos, com manifestações variadas. A dificuldade em reconhecer os primeiros sinais frequentemente leva os pacientes a atrasarem a busca por cuidados médicos.
A reumatologista Ana Cristina Boni Lenci do Hospital São Marcelino Champagnat observa que sintomas comuns são frequentemente minimizados.
<p“Em nosso consultório, frequentemente notamos que sinais como fadiga intensa, febre e dores no corpo são atribuídos ao estresse ou à rotina sobrecarregada. Isso resulta em atrasos na procura por ajuda médica e nem sempre leva os pacientes aos especialistas corretos”, explica.
As doenças autoimunes têm maior prevalência entre mulheres. Estudos mostram que cerca de 75% a 80% dos indivíduos afetados por essas condições são mulheres; essa proporção varia conforme a patologia específica.
No caso do lúpus eritematoso sistêmico, uma análise epidemiológica global revela uma prevalência significativamente maior entre as mulheres em relação aos homens.
Dessa forma, sintomas persistentes ou recorrentes não devem ser subestimados ou atribuídos simplesmente à rotina diária. A avaliação médica é crucial para identificar se há uma condição subjacente.
Glaucoma: um alerta silencioso até perder-se a visão
A saúde ocular também pode esconder questões sérias que só serão percebidas após ocorrer perda visual significativa. O glaucoma é um exemplo marcante disso.
Segundo informações do Ministério da Saúde, essa condição pode se desenvolver ao longo de meses ou anos sem exibir sintomas claros. Os sinais tendem a aparecer apenas em estágios mais avançados, quando já ocorre perda na visão periférica, levando o indivíduo a esbarrar em objetos ao seu redor.
A natureza silenciosa do glaucoma torna essencial o acompanhamento oftalmológico para aqueles com fatores de risco conhecidos.
Robson Koiti Takeda, oftalmologista do Centro Médico e Diagnóstico do Hospital Nipo-Brasileiro (HNIPO), destaca que a tecnologia atual aprimorou muito nossa capacidade de detectar alterações antes mesmo que os pacientes percebam qualquer mudança na visão.
<p“Hoje contamos com diversas avaliações avançadas e não invasivas que elevaram significativamente os padrões da prevenção. Exames como microscopia especular da córnea e tonometria permitem um detalhamento minucioso dos olhos dos pacientes”, afirma.
Ele acrescenta ainda que condições como glaucoma e retinopatia diabética requerem diagnóstico precoce e tratamento adequado para evitar perdas visuais irreversíveis.
Danos cardiovasculares gerados pelo tabagismo antes das crises agudas
Muitas vezes o tabagismo é imediatamente associado ao câncer pulmonar ou doenças respiratórias. Contudo, os efeitos nocivos do cigarro também afetam gravemente o sistema cardiovascular.
No contexto nacional, o Inca relaciona o tabagismo com enfermidades como doença coronariana, infarto agudo do miocárdio, hipertensão arterial e AVCs. Fumantes têm um risco duas a quatro vezes maior de desenvolver doenças coronarianas comparado aos não fumantes.
<p“O cigarro não prejudica apenas os pulmões. Ele impacta diretamente o sistema cardiovascular promovendo inflamações crônicas e tromboses enquanto causa lesões progressivas nas artérias. Muitas vezes,s esses danos evoluem sem serem percebidos até culminarem em eventos graves como infarto ou AVC”, afirma André Luís Câmara Galvão presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (SOCERGS).
Números fornecidos pelo Inca revelam quão significativo é esse problema: em 2020 foram registrados 444.953 novos casos relacionados ao tabagismo no Brasil envolvendo doenças cardíacas além de 52.737 AVCs e 433.729 novos casos de DPOC.
Quando buscar orientação médica?
A lista idealizada com exames necessários não serve para todos; as necessidades de diligenciamento variam conforme idade, histórico familiar prévio à saúde pessoal , hábitos alimentares entre outros fatores pertinentes ao estado geral do paciente.
A principal prioridade deve ser manter consultas regulares mesmo na ausência manifesta de sintomas; assim é vital conversar com um profissional para determinar quais avaliações são adequadas individualmente para cada caso específico.








