Google: Após mais de 20 anos de colaboração mútua, o acordo que sustentava a internet comercial chegou ao fim. Durante esse período, havia um entendimento claro: os sites permitiam que motores de busca indexassem seu conteúdo e, em troca, recebiam visitantes, visibilidade e receita. Com a chegada da inteligência artificial generativa, a plataforma começou a oferecer respostas prontas, retendo os usuários e afetando financeiramente aqueles que geram as informações originais.
No dia 3 de maio, a Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido (CMA) deu um passo pioneiro para conter essa dinâmica exploratória. Em uma decisão sem precedentes, o órgão regulador determinou que o Google deve permitir que veículos de notícias e criadores de conteúdo bloqueiem o uso de suas reportagens nos resumos gerados por sistemas de IA (como o AI Overviews e o AI Mode) sem precisar ser excluídos dos resultados das pesquisas tradicionais.
A ação britânica surge em meio a um debate global intrincado sobre as grandes tecnologias e a inteligência artificial, que afeta a soberania digital e as estruturas econômicas. Anteriormente, os veículos enfrentavam uma situação de chantagem técnica: a única maneira de impedir que a IA do Google utilizasse seu conteúdo gratuitamente era barrar completamente os rastreadores da empresa. No entanto, essa estratégia resultava na exclusão dos sites do maior motor de busca do mundo, que atualmente controla mais de 90% do mercado tanto no Reino Unido quanto globalmente. O que foi estabelecido pelo Reino Unido foi uma separação entre indexação tradicional e uso para alimentar a inteligência artificial.
A visita ao site eliminada pelo algoritmo
A nova regulação atinge o núcleo da estratégia atual das grandes empresas tecnológicas. Em maio passado, o Google anunciou a ampliação do AI Mode, caracterizando essa movimentação como a mais significativa atualização na busca em 25 anos. O CEO Sundar Pichai confirmou recentemente que os recursos baseados em IA já contam com bilhões de usuários ativos mensalmente.
No entanto, para o setor jornalístico, essa inovação representa uma ameaça estrutural. A técnica conhecida como query fan-out, que consiste em cruzar diversas fontes para criar uma resposta única em forma de conversa, elimina a necessidade da interação com o site. Sem essas visitas, há uma queda acentuada na receita publicitária, na conversão de assinaturas e na relação direta entre leitores e marcas jornalísticas.
Estudos independentes já estão avaliando essa situação. Uma pesquisa recente publicada no repositório arXiv analisou mais de 55 mil buscas e constatou que o AI Overviews é acionado em quase 65% das consultas feitas na forma de perguntas. Outro estudo (aprovado para apresentação na conferência SIGIR 2026) mostrou que as respostas geradas por IA já prevalecem sobre os resultados orgânicos em mais da metade das buscas realizadas, empurrando o jornalismo para uma invisibilidade nas telas.
Diante dessas pressões, o Google se comprometeu a atender às exigências da CMA dentro de nove meses e apresentará relatórios semestrais sobre sua conformidade. Além disso, a empresa terá que implementar novos painéis no Search Console, permitindo aos editores monitorar quantas vezes seus conteúdos foram utilizados como fontes nas respostas automáticas. Contudo, visualizar esses dados não resolve a questão da falta de remuneração.
A proposta da OpenAI: solução ou mera esmola?
No vazio deixado pela remuneração adequada, a OpenAI — responsável pelo ChatGPT — busca instaurar um novo modelo econômico antes que enfrentem reguladores rigorosos. O tema sobre compensação financeira se tornou urgente após decisões judiciais significativas envolvendo direitos autorais da OpenAI em tribunais europeus.
<pNesse contexto jurídico desafiador, Sam Altman, CEO da OpenAI, tem defendido abertamente a transição dos atuais contratos volumosos com grandes veículos para um sistema baseado em micropagamentos.
A ideia é transformar notícias em um tipo de pedágio automatizado. Quando uma IA acessar uma reportagem solicitada por um usuário para gerar um resumo, ela pagaria uma pequena quantia ao veículo. Se for necessário ler o texto completo, esse valor aumentaria. Altman mencionou exemplos como cerca de US$ 0,17 por leitura e US$ 1 pelo acesso total à informação.
Ainda no estágio conceitual, o setor de infraestrutura digital já começa a se adaptar para facilitar essa cobrança. O serviço Pay Per Crawl, desenvolvido pela Cloudflare, permite que proprietários de sites identifiquem robôs de IA e exijam pagamento automático para liberar acesso ao conteúdo.
A nova era da economia da atenção
A justaposição entre as barreiras regulatórias impostas ao Google no Reino Unido e as tentativas da OpenAI para precificar seu uso destacam os novos desafios enfrentados pelo jornalismo digital contemporâneo. A discussão agora transcende estratégias tradicionais como SEO (otimização para mecanismos de busca) e adentra questões relacionadas aos direitos autorais e à sustentabilidade empresarial na era da automação.
No Brasil, as repercussões dessa disputa internacional também se intensificam à medida que cresce o lobby das big techs no debate sobre inteligência artificial no Congresso Nacional, onde se discute fervorosamente um marco regulatório para essa tecnologia.
Caso o tráfego orgânico esteja com seus dias contados, as informações bem apuradas se tornam ativos valiosos escassos essenciais para treinar modelos linguísticos. O desafio agora é assegurar que as ferramentas responsáveis por organizar a internet não comprometam financeiramente aqueles que produzem esse conteúdo essencial.








