Pastor e defensor do socialismo: a liberdade que vem da verdade!

É comum que me questionem sobre como é possível ser pastor e, ao mesmo tempo, defender ideais socialistas. Acredito que a indagação é direcionada à pessoa equivocada. O verdadeiro desafio está com aqueles que se dizem pastores e são adeptos do capitalismo. Como é viável alinhar a mensagem do Evangelho, que prega a partilha, dignidade e igualdade, a um sistema econômico fundamentado na acumulação de riqueza, concentração de propriedade e, muitas vezes, na exploração do próximo?

Refletindo sobre isso, assisti a um vídeo de 2021 que voltou a ganhar destaque nas redes sociais. Nele, o ministro Flávio Dino se apresenta como comunista, enquanto o pastor Heleno Bezerra cita diversas frases atribuídas a Vladimir Lenin. O problema é que muitas dessas citações não têm respaldo nos escritos originais de Lenin. Uma verificação feita pelo Estadão Verifica revelou que não há registros históricos dessas falas nos documentos do líder revolucionário. Por exemplo, a expressão “idiota útil” foi documentada apenas décadas após a morte de Lenin.

A utilização do púlpito para disseminar informações falsas em nome da verdade é algo extremamente grave. Aqui reside minha preocupação como pastor: desde quando é necessário mentir para sustentar nossa fé? Se o cristianismo é genuíno, ele não precisa recorrer a fake news para se manter relevante. Se o Evangelho tem poder transformador, não necessita inventar palavras de Lenin. A mensagem cristã que transforma vidas não deve distorcer a história para criticar o socialismo. Se queremos abordar moralidade, devemos começar pela honestidade.

Vamos discutir comunismo e socialismo. É possível discordar de Marx e Lenin e analisar criticamente as experiências dos países que se autodenominaram comunistas. Podemos apontar erros históricos, autoritarismos e contradições cometidas em nome do comunismo; tudo isso faz parte de um debate político saudável. No entanto, criar citações fictícias não é aceitável.

Outra questão incômoda para nós como cristãos diz respeito ao temor que a palavra “comunismo” provoca em alguns: por que essa palavra assusta tanto quando os conceitos que ela evoca — partilha, igualdade, solidariedade e preocupação com os pobres — são frequentemente encontrados no Novo Testamento?

Não estou afirmando que Jesus era um marxista; isso seria uma anacronia absurda, já que Ele viveu cerca de dezoito séculos antes de Marx. Além disso, o cristianismo primitivo não era uma agremiação política. O ponto que quero destacar é que existem valores presentes no Evangelho que entram em conflito direto com uma sociedade baseada na acumulação desenfreada e na indiferença à pobreza.

Evidências disso podem ser encontradas na Bíblia: nos Evangelhos e em Atos dos Apóstolos estão as palavras de Jesus. Ele nunca disse: “acumulem”, mas fez críticas diretas àqueles que acumulavam riquezas. Em uma de suas parábolas, Ele chamou um homem rico de “Louco” por sua avareza!

A proposta do Evangelho é radicalmente diferente: “vende tudo o que tens e dá aos pobres”. Essa frase não pertence a Marx nem a Lenin; ela está atribuída diretamente a Jesus nos textos evangélicos.

Além disso, Jesus não trata a pobreza como uma questão moral do pobre; ao contrário, apresenta ao rico a responsabilidade sobre sua riqueza. Isso deveria levar qualquer pastor que defende o capitalismo como dogma a refletir profundamente. O Evangelho diz: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A mensagem de Jesus gira em torno do amor ao próximo e não da prosperidade individual.

No livro de Atos dos Apóstolos encontramos um relato impressionante sobre uma experiência comunitária: “Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.” E prossegue dizendo: “Vendiam suas propriedades e bens e repartiam entre todos conforme cada um tinha necessidade.” Em seguida, afirma ainda mais enfaticamente: “Ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria; todas as coisas eram comuns.”

E qual foi o resultado dessa prática? “Não havia entre eles necessitado algum.” Os bens eram distribuídos segundo as necessidades individuais. Não chamaria isso de “comunismo” no sentido histórico atribuído por Marx; seria uma simplificação histórica indevida. Contudo, não posso ignorar as semelhanças entre esses princípios de comunidade e as aspirações presentes nas tradições socialistas. O cristianismo primitivo parecia desprezar uma sociedade onde poucos detêm muito enquanto muitos têm pouco.

Retornando ao vídeo mencionado anteriormente: nele são atribuídas a Lenin frases como “usaremos os idiotas úteis”, “destruiremos a família e a espiritualidade” e “o Estado será Deus”. Essas afirmações simplesmente não existem nos escritos dele; grande parte desse conteúdo circula há décadas em círculos anticomunistas.

Certa frase atribuída ao Manifesto Comunista também não está presente no texto original de Marx e Engels; na verdade, essa formulação sobre homossexualidade como “normal” vem de uma lista criada pelo americano W. Cleon Skousen em seu livro The Naked Communist, publicado em 1958 — ou seja, pegou-se um texto anticomunista posterior à época de Marx para atribuí-lo erroneamente ao pensador.

Isso não representa uma defesa da fé; trata-se meramente de desinformação — e desinformação equivale à mentira! Para Jesus, quem gera mentiras é o diabo! O Evangelho possui uma profundidade radical muitas vezes ignorada.

A percepção dessas questões implica reconhecer que nossa fé cristã possui consequências sociais significativas. Quando Jesus menciona os pobres, famintos, estrangeiros, prisioneiros ou excluídos, ele não está promovendo um discurso sobre enriquecimento pessoal.

Então surge a pergunta: pode-se ser cristão e socialista? Certamente! Assim como também se pode ser cristão com diferentes orientações políticas. A fé cristã transcende rótulos partidários específicos; entretanto, rejeito firmemente a ideia de que ser socialista seja automaticamente incompatível com ser cristão.

Eu me recuso! Sou cristão e socialista/comunista porque entendo que o socialismo — através das suas diversas correntes — coloca em evidência uma interrogação essencial também presente no Evangelho: como construir uma sociedade onde ninguém seja visto como descartável?

Isso não implica santificar regimes socialistas; significa simplesmente reconhecer que não há monopólio cristão sobre conceitos como “família”, moralidade ou liberdade — muito menos sobre a defesa da vida! E acima de tudo isso implica recusar utilizar o nome de Jesus como arma contra os pobres, trabalhadores ou minorias.

Outro aspecto recorrente dessas distorções é a suposta ameaça comunista à família; curiosamente alguns pastores parecem alarmados quando alguém defende políticas públicas voltadas à proteção social ou direitos trabalhistas — mas essa mesma família aparentemente não corre risco quando um trabalhador enfrenta dificuldades financeiras para pagar aluguel ou alimentar seus filhos!

A família só vira pauta quando há necessidade de apontar um inimigo político — algo bastante contraditório considerando que Jesus nunca disse para perseguirmos quem possui opiniões diferentes; Ele ordenou amar nossos próximos assim como nossos inimigos! Essa mensagem se afasta completamente da lógica política do ódio.

Sim! Sou cristão e socialista!

Não preciso transformar Jesus em socialista para perceber os valores socialistas com os quais minha fé dialoga profundamente; assim como também não ignoro os erros históricos perpetrados sob bandeiras socialistas nem transformo Marx em profeta. Reivindico meu direito à interpretação política da minha fé sem permitir que pastores metamorfoseiem posições ideológicas particulares em dogmas cristãos.

Sendo pastor cristão socialista acredito na organização da sociedade visando dignidade e direitos materiais para todos; difícil aceitar indiferença diante da desigualdade econômica onde poucos concentram imensas riquezas enquanto milhões vivem sob insegurança financeira — essa é minha leitura política do Evangelho! Outros podem ter visões diferentes; num debate democrático existe espaço para pluralidade!

A única coisa inaceitável é usar essa luta contra minha posição construindo narrativas falsas; recusar atribuir palavras inexistentes a Lenin ou ideias errôneas a Marx ou fazer parecer que Jesus defendeu um sistema econômico desconhecido por Ele! Não aceito ver o púlpito convertido numa fábrica para criar inimigos políticos nem permitir desinformação justificando ações baseadas na fé!

A origem da minha fé não vem nem da Wall Street nem da Moscou soviética; surgiu dentro da tradição daquele pobre periférico chamado Jesus Cristo! Ele colocou os marginalizados no centro da sua mensagem enquanto desafiava os poderosos daquela época sentando-se à mesa com excluídos denunciando hipocrisias religiosas — ensinou-nos também que servir simultaneamente Deus e dinheiro é impossível!

Diante disso tudo quando novamente me perguntarem como posso ser pastor socialista talvez eu responda lembrando aos questionadores quem realmente deveria refletir sobre suas convicções: antes mesmo dos questionamentos acerca do porquê um cristão defende igualdade ou solidariedade talvez eles precisem ponderar porquê aqueles proclamando o Evangelho tentam transformar acúmulo econômico numa virtude enquanto tratam desigualdade como fatalidade!

Não tenho obrigação alguma em transformar Jesus num militante partidário ou teórico socialista! Contudo tenho responsabilidades sérias ao levar suas palavras com atenção! Quando Ele insiste em repartir bens atender aos necessitados colocar dignidade humana acima das riquezas eu jamais poderei ignorá-las só porque alguém decidiu considerar essas ideias perigosas!

Caso discordem tragam argumentos sólidos embasados pela história teológica fatos concretos; podemos discutir tudo isso juntos! Mas discutir aquilo simplesmente inexistente torna-se inviável porque quem se diz discípulo deve prezar pela verdade acima das vitórias políticas!

No final das contas talvez questionar quanto conseguimos acumular seja menos pertinente do quê perguntar:

“Quanto você teve capacidade para repartir aquilo recebido?”

 

* Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor licenciado em história pós-graduado Ciências Políticas

** Este artigo pode não refletir necessariamente opiniões da Revista Fórum

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