Flamengo: A Grandeza que Transcende as Apostas! Desabafo de um Torcedor Rubro-Negro Envergonhado

Desde a infância, sempre fui um apaixonado pelo Flamengo. Recordo-me de ter chorado, aos 9 anos, com o gol de Nunes contra o Atlético Mineiro em 1980. A partida foi assistida em uma mini televisão alimentada pela bateria de um carro, no único ponto em Teresópolis onde era possível captar o sinal da Globo que ia para Juiz de Fora: a colina dos Mirantes. Foi uma verdadeira festa! Uma emoção intensa que despertou no coração de um garoto a paixão pelo Clube de Regatas do Flamengo.

Após anos vibrando e sofrendo pelo Mengão, me surpreende a postura da atual gestão do clube frente à decisão do governo Lula de banir as apostas esportivas no Brasil. O presidente Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, chegou a questionar: “Como vou pagar o Paquetá em janeiro?”. A administração flamenguista estima que essa mudança pode acarretar uma perda de cerca de R$ 400 milhões nas receitas do clube.

No entanto, é importante reformular essa pergunta:

Como poderá o Brasil evitar que milhares de indivíduos continuem arruinando suas vidas para que o Flamengo consiga honrar os pagamentos ao Paquetá?

É válido discutir os impactos financeiros dessa decisão, as consequências para os clubes e até mesmo o potencial crescimento do mercado ilegal. Contudo, não parece razoável utilizar a dependência financeira de um setor polêmico como justificativa para sua continuidade.

O Flamengo já existia antes das apostas. Era um gigante muito antes desse fenômeno. Os estádios eram lotados, as camisas vendidas em grande quantidade e ídolos eram revelados enquanto títulos eram conquistados muito antes que qualquer aplicativo oferecesse aos torcedores a chance de apostar no número de escanteios durante as partidas.

O verdadeiro patrimônio do Flamengo nunca foram as casas de apostas. A Nação é seu maior tesouro.

E uma instituição popular não deveria estar atrelada à fragilidade econômica daqueles que a apoiam. Afinal, o dinheiro das apostas não surge do nada; ele provém do salário de alguém, do orçamento familiar ou da mesada de um jovem — recursos que deveriam ser usados para outras necessidades. O apostador perde e tenta recuperar o que perdeu, frequentemente entrando em um ciclo vicioso de endividamento que ultrapassa as questões financeiras. É nesse ponto que a discussão vai além do mero patrocínio.

Há também uma ironia quase perfeita nesta situação. Muitos dos defensores mais fervorosos das apostas nas redes sociais são influenciadores e criadores de conteúdo que se beneficiaram financeiramente ao promover esse mercado. É o velho conflito de interesses brasileiro agora revestido com as cores vermelho e preto.

Esses aproveitadores ainda ressuscitam o logo famoso da torcida: “Ninguém morre nos devendo”, tentando confrontar diretamente o presidente Lula e persuadir a Nação a apoiar essa ideia absurda e repugnante, optando por “outro candidato” que defende as apostas e compartilha da mesma visão do ex-ministro da economia: “deixa cada um se ferrar como quiser, especialmente se for maior e vacinado”.

Talvez seja hora de fazer uma reflexão séria sobre essa frase: Ninguém deve morrer devendo. E mais: ninguém deve chegar ao ponto de dever tanto a ponto de querer desistir da vida. Há pessoas que perderam dinheiro, bens materiais, laços familiares e até empregos; em casos extremos, chegaram a perder a vontade de viver devido à compulsão pelas apostas e suas dívidas associadas.

Não é necessário demonizar quem faz apostas para reconhecer esse problema. Basta compreender uma regra básica desse negócio: a casa sempre vence. E quando isso acontece, alguém sai perdendo.

É especialmente desconfortável ver o Flamengo emprestando sua imensa autoridade emocional a uma indústria que transforma paixão em lucro. O torcedor não apenas aposta em um jogo; ele aposta em seu time. Ele acredita porque conhece os jogadores, acompanha os jogos, sente dor nas derrotas e celebra nas vitórias. Essa paixão é exatamente o que torna o futebol tão valioso para as casas de apostas.

O Flamengo não oferece apenas espaço publicitário; oferece algo muito mais poderoso: a confiança emocional de milhões de torcedores. Essa paixão impõe responsabilidades.

Outra questão dolorosa não deve ser esquecida pelo Flamengo: dez jovens perderam a vida no trágico incêndio ocorrido no Ninho do Urubu. O clube fez acordos com todas as famílias afetadas pela tragédia; o último deles foi selado em fevereiro de 2025. No entanto, passados mais de sete anos desde aquele evento devastador, ainda não houve responsabilização criminal pelos acontecimentos daquele dia.

Não há necessidade de misturar diferentes tragédias para reconhecer uma questão comum: nenhuma planilha financeira pode ser mais valiosa do que vidas humanas. Assim sendo, é justo perguntar qual tipo de instituição o Flamengo deseja ser: aquela que protege seus torcedores ou aquela que prioriza suas receitas provenientes das apostas?

O Flamengo não é uma instituição financeira ou casa de apostas; trata-se de um clube esportivo — um verdadeiro fenômeno social. Seu principal ativo reside na relação afetiva com milhões de torcedores. Portanto, a proibição das apostas não ameaça sua existência; pode sim impactar um modelo específico de negócios — e negócios podem ser reestruturados.

A torcida continua firme; sua história permanece viva; seu hino ecoa; e sua paixão resiste. As apostas? Essas são passageiras.

Também não precisamos transformar o Flamengo em mais uma arena da política brasileira onde qualquer crítica ao governo é vista como defesa dos interesses privados. É perfeitamente viável questionar as medidas tomadas por Lula, discutir seus efeitos e debater alternativas regulatórias.

Porém, reduzir tudo à indagação: “Como vou pagar o Paquetá?”, parece inaceitável diante das reais preocupações enfrentadas por milhões: “Como pagarei minhas dívidas?”, “Como olharei nos olhos dos meus filhos após ter perdido tudo?”, “Como chegarei em casa sem nada para oferecer porque apostei tudo e perdi?”, “Como conseguirei sair dessa situação?”. E muitos sequer conseguem formular essa última pergunta.

O Flamengo precisa lembrar-se algo fundamental: não há grandeza construída sobre os destroços daqueles que sustentam essa grandeza. O torcedor já contribui com ingressos, camisas e planos sociais além dos investimentos emocionais envolvidos na sua devoção ao clube. Não seria demais exigir que ele não precise também sacrificar sua saúde financeira.

O hino menciona que o Flamengo “me mata, me maltrata, me arrebata”. Que isso permaneça apenas como uma metáfora.

Que o “mata” simbolize um gol marcado aos 48 minutos finais.

Que “maltrata” represente uma eliminação dolorosa.

E que “arrebata” remeta à emoção gerada por mais uma conquista.

Que ninguém tenha que vivenciar essas palavras literalmente por ter perdido sua casa ou família devido às dívidas decorrentes das apostas.

Desejo continuar cantando com orgulho “a alegria de ser rubro-negro”. Quero ver meu Flamengo próspero e competitivo; mas não quero vê-lo enriquecendo às custas da pobreza dos seus torcedores. Não aceito ver sua grandeza sustentada pelo endividamento daqueles que amam esse clube.

O Flamengo não deve usar a miséria dos seus torcedores como moeda.

Porque talvez esta seja a única aposta que jamais deveria fazer.

* Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas

** Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Revista Fórum

Related Posts

Parceria além da amizade: PF expõe laços estreitos entre Vorcaro e Luciano Huck em negócios e afeto

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam uma intensa relação de negócios e amizade com o apresentador Luciano Huck, da TV Globo. A parceria, que durou cerca de dois anos antes da prisão do banqueiro, incluiu sociedade em aeronave, jantares no Brasil e no exterior e um […]

Incêndio de escultura em São Vicente levanta preocupações sobre intolerância religiosa

A tradicional Feiticeira da Praia do Itararé, em São Vicente, na Baixada Santista, foi destruída pelo fogo no início da noite desta quarta-feira (30). A escultura, instalada sobre uma formação rochosa na faixa de areia, foi rapidamente consumida pelas chamas. As circunstâncias chamam a atenção. A figura, com cerca de 3,5 metros e feita de […]

Deixe um comentário