Cristãos combatem o fascismo em conferência internacional realizada em Porto Alegre

A partir de hoje (26), até o dia 29 de março, Porto Alegre se torna palco de um dos mais relevantes encontros políticos internacionais do ano: a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. Com milhares de inscritos e participação de representantes de diversos continentes, o evento busca construir respostas coletivas diante da crescente escalada autoritária e do fortalecimento de projetos de extrema-direita ao redor do mundo.

A conferência é apresentada como um “ato político urgente de resistência coletiva”, reunindo movimentos sociais, organizações políticas, sindicatos e ativistas em uma programação que inclui conferências centrais, plenárias, atividades autogestionadas e mobilizações de rua — como a marcha de abertura prevista para o centro da cidade.

Mais do que um encontro pontual, a proposta é consolidar uma articulação internacional permanente, conectando lutas locais e criando estratégias comuns de enfrentamento ao fascismo contemporâneo.

Fé, política e disputa de sentido

Dentro dessa ampla programação, o Encontro Cristão Antifascista se destaca como um espaço estratégico de diálogo entre espiritualidade, política e justiça social. A atividade reúne lideranças religiosas, teólogos e militantes que se posicionam contra o uso da fé como ferramenta de exclusão e autoritarismo.

Entre os convidados estão nomes como a deputada federal Maria do Rosário, o deputado Chico Alencar, o ex-governador Olívio Dutra, além de lideranças religiosas como a pastora luterana Cibele Kuss e o frei franciscano Luiz Carlos Susin. A mediação será conduzida por Bianca Ramires, do movimento Cristãos Contra o Fascismo e da Igreja Casa.

O ponto de partida do encontro é claro: o campo religioso é também um espaço de disputa política e simbólica. Nos últimos anos, setores fundamentalistas têm instrumentalizado a fé para sustentar discursos reacionários e legitimar projetos de poder autoritários.

Para o teólogo Tiago Santos, teólogo e religioso da Igreja Casa e um dos líderes do movimento, esse processo representa uma distorção profunda da mensagem cristã:

“Existe um projeto de poder que tem sequestrado a fé pra espalhar medo e exercer controle. O discurso fascista dentro da igreja se disfarça de ética cristã e moral, mas na prática produz violência contra grupos historicamente vulnerabilizados e aprofunda a desigualdade social ao reforçar o discurso dos poderosos e colocar a massa contra seus próprios direitos. Isso não tem nada a ver com o Evangelho do nosso Senhor Jesus. Quem se utiliza da fé para oprimir aos empobrecidos está traindo a fé cristã”.

Religião como território político

O encontro também busca confrontar uma ideia ainda muito difundida: a de que religião e política não devem se misturar. Para os organizadores, essa separação ignora a própria história, na qual a fé esteve presente em diversas lutas por direitos e justiça social.

Tiago Santos reforça que abandonar esse campo é, na prática, abrir mão de disputar valores e narrativas fundamentais na sociedade:

“A esquerda política precisa entender que fé também é território de disputa. Abrir mão desse espaço é deixar que outros definam Deus como instrumento de opressão. Nas periferias do nosso país, a fé é força de sobrevivência, é linguagem do povo comum e da classe trabalhadora. Disputar o campo religioso é disputar sentido, é afirmar que espiritualidade também pode ser caminho de justiça, acolhimento e transformação social.”

Uma cidade simbólica

A escolha de Porto Alegre como sede do encontro carrega forte simbolismo. Historicamente reconhecida por experiências de participação popular e construção democrática, a cidade hoje reflete as tensões do Brasil contemporâneo: crescimento de discursos conservadores, fortalecimento de setores religiosos alinhados à extrema-direita e impactos sociais recentes, como crises econômicas e desastres climáticos.

Ao mesmo tempo, a capital gaúcha segue sendo um território de resistência, com movimentos sociais ativos e experiências comunitárias que constroem alternativas concretas nas periferias e nos espaços de fé.

Não por acaso, foi ali que nasceu o movimento nacional de Cristãs e Cristãos Contra o Fascismo.

O Encontro Cristão Antifascista acontece no sábado, dia 28, às 8h30, no Prédio Branco da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, localizado na Rua Sarmento Leite, 475, no centro de Porto Alegre. A atividade tem início com um café da manhã e integra a programação oficial da conferência.

Mais informações podem ser acessadas no site oficial do evento

https://antifas2026.org/

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