No contexto atual de discussões sobre o término da escala 6×1, um testemunho de um ex-colaborador do McDonald’s ganhou destaque nas mídias sociais, ilustrando o impacto que receber conforme as horas trabalhadas pode ter na vida de um empregado. Essa abordagem é promovida pelo candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) como uma alternativa à proposta de diminuição da jornada sem cortes salariais.
Diego Salgado, que foi funcionário da rede de fast-food em 2001 com contrato formal e sob a escala 6×1, relatou que sua remuneração era de R$ 1,60 por hora. Segundo ele, o principal desafio era a falta de garantia de que conseguiria cumprir uma carga horária diária suficiente para garantir uma renda estável no fim do mês.
“Recebia R$ 1,60 por hora, mas não havia certeza de realizar 7h20 diárias. Muitas vezes, quando o movimento estava fraco, eu era dispensado após 4 ou 5 horas. Era angustiante pensar: ‘Como vou pagar as contas?’”
O depoimento ganhou notoriedade justo quando Flávio tenta apresentar sua proposta como uma forma de “liberdade” para os trabalhadores, sugerindo que a remuneração esteja atrelada à quantidade de horas escolhidas ou executadas.
Nesta terça-feira (6), ao reiterar sua posição contrária ao fim da escala 6×1, o candidato do PL afirmou que prefere dar aos trabalhadores a liberdade para definir suas próprias jornadas.
“Aqueles que desejam trabalhar mais poderão fazê-lo; já os que optarem por menos horas, também terão essa possibilidade”, declarou.
A proposta apresentada por Flávio se opõe à PEC discutida no Senado, que propõe reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso e estabelece, como ponto crucial, a proibição da redução salarial.
Impacto da diminuição do movimento sobre os salários
A experiência compartilhada pelo ex-funcionário do McDonald’s ilustra claramente a discrepância entre reduzir a carga horária mantendo o salário e simplesmente receber menos devido à diminuição das horas trabalhadas.
No primeiro cenário — defendido pelo governo Lula — o trabalhador tem mais tempo livre para descanso e convivência familiar sem perder parte de sua renda. Em contraste, o modelo sugerido por Flávio pode resultar em uma diminuição direta no valor disponível para despesas essenciais quando as horas são reduzidas.
Renato Rovai, diretor de redação da Fórum, destacou essa questão ao recordar como funcionava o sistema no McDonald’s durante anos no Brasil.
“Flávio Bolsonaro apoia que os empregadores paguem os trabalhadores por hora. Tudo bem, mas vamos fazer algumas contas. O salário mínimo é atualmente R$ 1.621 e considerando uma jornada semanal de 44h, o valor pago por hora seria R$ 7,37. Isso é o que a maioria dos trabalhadores receberá”, escreveu ele.
Rovai detalhou as consequências desse modelo sobre a renda mensal dos trabalhadores.
“Se houver trabalho suficiente, a pessoa pode passar entre 8 e 10 horas lá. Mas se não houver demanda, ela pode ser chamada apenas para trabalhar 2 ou 3 horas num dia.”
Lembrando sua experiência no McDonald’s, ele acrescentou que os funcionários estavam expostos às variações na demanda dos restaurantes.
“Esse é o cerne da questão. É necessário esclarecer isso melhor durante a campanha e educar sobre assuntos que impactam diretamente a vida das pessoas”, comentou.
A oposição ao fim da escala 6×1
A discussão sobre esse tema se intensificou na campanha do segundo turno quando Flávio Bolsonaro reafirmou sua aversão à proposta que extingue a escala em que se trabalha seis dias seguidos seguidos por um dia de folga.
Ele descreveu a PEC como “oportunista” e apresentou sua própria proposta como “infinitamente melhor”, permitindo que cada trabalhador defina sua jornada com salários baseados nas horas trabalhadas.
Lula respondeu afirmando que a proposta do adversário implica fazer com que os trabalhadores escolham entre descansar ou ganhar dinheiro.
“Na visão dele, quem trabalha menos deve receber menos. Gostaria de vê-lo explicar isso para uma mãe solteira: qual conta ela deixará de pagar para poder descansar? A conta da luz? O aluguel? Aqueles que dependem do seu salário sabem que isso não é uma escolha real”, disse o presidente.
Lula propõe um regime laboral com cinco dias de trabalho e dois dias de descanso sem redução salarial.
“Quem já faz tanto por este país merece mais tempo para viver dignamente com salário justo e direitos garantidos”, afirmou Lula.
A resistência da campanha de Flávio à PEC
A oposição à mudança vai além das declarações públicas do candidato.
Membros do núcleo político da campanha de Flávio estão atuando no Senado para barrar a aprovação da PEC. Um dos principais articuladores dessa ação é Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial do senador e líder oposicionista na Casa Legislativa.
Marinho votou contra a proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde ela foi aprovada.
Dessa forma, a controvérsia em torno da escala 6×1 tornou-se um dos temas centrais diferenciadores entre os dois candidatos no segundo turno: enquanto Lula defende a redução dos dias trabalhados sem corte nos salários, Flávio se opõe à mudança e sugere um sistema em que trabalhar menos resulta em salário menor.







