A Justiça paulista deu início ao processo de interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), que aos 94 anos enfrenta os desafios impostos pelo avanço da doença de Alzheimer, uma condição neurodegenerativa que afeta sua autonomia e capacidade de tomar decisões.
Embora a interdição envolva um nome conhecido, trata-se de um procedimento comum no âmbito do Direito de Família brasileiro, criado para proteger pessoas que, devido a problemas de saúde, não conseguem manifestar sua vontade plenamente.
O processo está sendo conduzido sob um certo grau de sigilo, visando preservar a privacidade do ex-presidente, e foi desencadeado por um pedido formal de seus filhos: Paulo Henrique, Luciana e Beatriz Cardoso. A principal justificativa para essa ação são os laudos médicos que indicam um estágio avançado de comprometimento cognitivo, compatível com o Alzheimer.
A concessão da curatela provisória a Paulo Henrique Cardoso, filho mais velho de FHC, foi motivada pela necessidade urgente de organizar as questões financeiras e administrativas do sociólogo. Em situações de demência severa, o indivíduo pode se tornar suscetível a erros administrativos ou fraudes, além da incapacidade para lidar com tarefas cotidianas como o pagamento de contas e a gestão de investimentos.
É importante ressaltar que o diagnóstico de Alzheimer não resulta automaticamente em interdição; cada caso deve ser avaliado judicialmente.
Conforme estipulado no artigo 1.767 do Código Civil brasileiro, a análise da incapacidade deve ser realizada individualmente, levando em consideração o grau de comprometimento do indivíduo. O Judiciário examina se a pessoa consegue expressar suas vontades, entender as consequências dos seus atos e administrar sua vida e bens.
Compreendendo a interdição
A interdição é muitas vezes mal interpretada como uma forma de punição ou perda de direitos; na realidade, é um mecanismo protetivo. Com a introdução do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), houve mudanças significativas nessa abordagem, priorizando o respeito à dignidade humana.
<pAssim, a interdição é o reconhecimento legal da incapacidade da pessoa em realizar atos na vida civil. A curatela refere-se ao papel atribuído a um curador que tem a responsabilidade de proteger os interesses do interditado e gerenciar seus bens.
No entanto, existem limites estritos para essa atuação. O curador não possui poderes absolutos; ele deve prestar contas regularmente ao juiz e ao Ministério Público (MP), assegurando que os recursos do interditado sejam utilizados exclusivamente para seu benefício.
No caso do ex-presidente FHC, a curatela se concentra apenas nas questões patrimoniais e negociais. Legalmente, ele ainda preserva seus direitos fundamentais, mas seu filho será responsável pela assinatura de contratos e administração das contas bancárias.
Atualmente, Fernando Henrique Cardoso reside em seu apartamento localizado no bairro Higienópolis, em São Paulo. O ambiente foi adaptado para oferecer suporte médico ininterrupto. Informações vindas de pessoas próximas à família indicam que o ex-presidente alterna entre momentos de clareza mental e períodos significativos de esquecimento, características associadas ao Alzheimer.
Patrícia Kundrát, companheira de FHC, desempenha um papel crucial nos cuidados diários. Durante o processo judicial, foi solicitada sua concordância para evitar possíveis conflitos familiares. Assim, a Justiça estabeleceu um prazo de 15 dias para que Paulo Henrique apresente formalmente essa anuência.
A relação entre os filhos e Patrícia é descrita como colaborativa e voltada para garantir o bem-estar do ex-presidente nesta fase delicada.
A união entre FHC e Patrícia foi formalizada em 2014 por meio de uma união estável; ela havia trabalhado por muitos anos como secretária-executiva e administradora no Instituto Fernando Henrique Cardoso — agora Fundação FHC.
Próximos passos no processo
O andamento do processo seguirá os trâmites normais. Um médico perito designado pelo Estado visitará o ex-presidente para validar os laudos apresentados pela família. Na sequência, o juiz poderá realizar uma “entrevista” humanizada com FHC para avaliar seu estado atual. Finalmente, após o parecer do Ministério Público, a interdição provisória poderá ser convertida em definitiva.
Crescimento desses casos
Aumentos no número da população idosa e nas doenças neurodegenerativas têm contribuído para uma maior frequência desses processos judiciais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta um crescimento expressivo no número de pessoas com demência até 2050.
Especialistas alertam que um dos principais riscos nesse contexto é a possibilidade das famílias tomarem decisões precipitadas que resultem na imposição prematura de restrições aos direitos dos indivíduos afetados; isso pode gerar conflitos familiares e questionamentos legais posteriores. Por esse motivo, o Judiciário exige laudos médicos detalhados e análises personalizadas antes da decisão sobre interdições.
Acervo da Fundação FHC
Com a interdição do ex-presidente FHC — que ocupou a presidência entre 1º de janeiro de 1995 até 1º de janeiro de 2003 — surge a questão sobre como ficará sua coleção histórica e a administração da Fundação FHC. A instituição assegura ter uma governança própria e um conselho administrativo independente garantindo assim a preservação do legado intelectual do sociólogo independentemente da sua condição pessoal atual.
O acervo histórico inclui documentos valiosos relacionados à redemocratização brasileira e ao período presidencial dele permanece acessível aos pesquisadores sob os cuidados dos profissionais que já atuavam sob as orientações diretas de Fernando Henrique antes do agravamento da sua saúde.








