Revelação cósmica em área remota pode questionar conceitos sobre a gênese do Universo

A astrônoma brasileira Catarina Aydar, que atua como pesquisadora associada no Instituto Max Planck para Física Extraterrestre, está conduzindo estudos sobre dois objetos cósmicos extremamente distantes. Sua pesquisa pode reescrever a narrativa do “universo primitivo”, referindo-se às primeiras fases de formação de estruturas cósmicas que ocorreram após o Big Bang, há aproximadamente 13,8 bilhões de anos.

Um estudo recente, divulgado no periódico Open Journal for Astrophysics, apresenta indícios de que galáxias massivas e buracos negros supermassivos já estavam presentes em um estágio muito inicial do Universo, quando ele contava com apenas cerca de 1,5 bilhão de anos, muito antes do que as teorias anteriores sugeriam.

Essas descobertas foram possíveis graças ao Telescópio Espacial James Webb, uma colaboração entre a NASA dos Estados Unidos, a ESA da Europa e a CSA do Canadá. O telescópio está posicionado no Ponto de Lagrange 2 (L2), a aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros da Terra.

No contexto de suas observações, o James Webb atua como uma “máquina do tempo”, permitindo a captura de luz emitida por esses objetos cósmicos que viajou por bilhões de anos antes de chegar até nós (com uma velocidade aproximada de 300 mil km por segundo).

Estima-se atualmente que o Universo tenha 13,8 bilhões de anos, conforme medições realizadas pela missão do Planck Space Observatory. No entanto, o James Webb consegue detectar vestígios desse passado distante através da observação em infravermelho, identificando luz cuja frequência foi alterada devido à expansão do Universo, fenômeno conhecido como redshift cosmológico.

A luz emitida por objetos mais afastados tende a apresentar um tom avermelhado e alongado.

Catarina Aydar e sua equipe analisaram duas galáxias selecionadas junto ao astrônomo Roderik Overzier, especialista em cosmologia observacional. Esses objetos são considerados representativos de diferentes fases dentro de um mesmo processo evolutivo.

Desde o ano passado, o James Webb tem identificado galáxias massivas surpreendentes, conhecidas como impossibly early galaxies, ou galáxias que surgiram cedo demais para serem explicadas pelos modelos atuais.

Nos últimos anos, o telescópio revelou uma interação gravitacional envolvendo seis galáxias em uma região extremamente densa. A hipótese levantada é que essas galáxias estejam em vias de fusão.

O primeiro objeto analisado pelos pesquisadores indicou essa possível colisão entre galáxias, o que pode favorecer a alimentação de buracos negros supermassivos e potencializar a formação estelar.

A húngara Krisztina Gabányi, coautora do estudo, observou que a emissão compacta de rádio detectada nesse sistema sugere um núcleo ainda em fase de desenvolvimento.

O segundo objeto observado aparentava ser uma galáxia massiva com uma morfologia irregular e esférica — características típicas de sistemas que passaram por fusões recentes. Isso indica que essa galáxia poderia representar um estágio mais avançado ou quase completo do processo de fusão.

Dessa forma, as observações parecem sugerir os estágios iniciais da fusão e subsequente consolidação em um sistema galáctico complexo.

A descoberta indica que até mesmo no universo primitivo as galáxias se formavam rapidamente. Além disso, buracos negros supermassivos — localizados nos centros das galáxias e alimentados por grandes quantidades de matéria e energia — já existiam antes do universo alcançar o nível de maturidade previsto pelos modelos tradicionais. Esses achados têm o potencial de transformar nossa compreensão dos modelos cosmológicos atuais.

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