Especialista alerta para o avanço da Síndrome da Impostora entre profissionais femininas no ambiente de trabalho.

O Ministério do Trabalho atualizou, em 2024, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a reconhecer, de forma oficial, riscos psicossociais no ambiente de trabalho. O fato obriga empresas a identificarem e gerenciarem fatores como sobrecarga, assédio moral e pressão excessiva por metas.

A princípio, um avanço significativo. Entretanto, ainda não é possível observar melhorias importantes na prática. A prova é que as mulheres continuam sendo as principais afetadas por ansiedade, depressão e burnout no trabalho.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mulheres apresentam maior prevalência de transtornos de ansiedade e depressão em comparação aos homens. Em ambientes laborais, estudos internacionais também apontam maior incidência de afastamentos femininos por estresse e esgotamento.

A psicóloga Danielle Silva admite que o reconhecimento dos riscos psicossociais na NR-1 abre espaço para uma mudança de narrativa. “Durante muito tempo, o sofrimento emocional feminino foi interpretado como fragilidade individual. Quando a norma reconhece o risco psicossocial, ela desloca o foco para a responsabilidade da estrutura organizacional”, destacou.

Síndrome da impostora

Um dos fenômenos mais frequentes dentro desse cenário é a chamada síndrome da impostora. O termo foi descrito em 1978, ao observar mulheres de alto desempenho profissional, que, mesmo diante de evidências concretas de sucesso, duvidavam de suas conquistas e se sentiam como se fossem fraudes.

Embora o problema não seja classificado como transtorno mental, a condição está associada à baixa autoestima, ansiedade crônica e maior risco de esgotamento.

A psicóloga apontou que o fenômeno não aparece de forma isolada. “A mulher aprende que precisa ser perfeita para merecer espaço. Que não pode errar e não pode demonstrar fragilidade. Esse padrão vira uma estratégia de sobrevivência dentro de ambientes que exigem excelência constante”.

O resultado principal é um ciclo silencioso: para compensar a sensação de insuficiência, muitas profissionais assumem jornadas prolongadas, evitam pedir ajuda e naturalizam ambientes tóxicos.

Após a atualização, a NR-1 determina que empresas passem a mapear fatores como sobrecarga de trabalho, pressão contínua por desempenho, falta de clareza de função, ambientes hostis ou competitivos e conflitos interpessoais constantes.

De acordo com Danny Silva, o critério não está na intensidade da meta, mas no impacto prolongado sobre o organismo. “O risco psicossocial começa quando a ansiedade não desliga nem fora do expediente, quando o descanso gera culpa e quando o erro passa a representar ameaça à própria identidade profissional”.

Sintomas e sobrecarga

Entre os sintomas mais comuns relatados por mulheres estão insônia, taquicardia, tensão muscular constante, irritabilidade seguida de culpa, sensação persistente de incompetência e cansaço que não melhora com descanso. “O corpo começa a pagar a conta do silêncio”, disse a especialista.

Além da dupla ou tripla jornada, mulheres frequentemente acumulam sobrecarga emocional invisível no trabalho, mediando conflitos, sustentando relações e absorvendo tensões da equipe. Esse trabalho relacional raramente é mensurado, mas impacta diretamente a saúde mental.

“A síndrome da impostora não é fraqueza. É sintoma de um sistema que ainda opera com desigualdade simbólica. Quando a mulher acredita que precisa merecer descanso, o risco psicossocial já está instalado”, analisou.

O que muda e o que precisa mudar

Com a atualização da NR-1, empresas passam, obrigatoriamente, a ter responsabilidade ativa na gestão dos riscos psicossociais, o que inclui diagnóstico real do ambiente e planos contínuos de prevenção.

Entretanto, a psicóloga alertou que nenhuma legislação transforma cultura sozinha. “A norma abre uma porta institucional importante. Mas, enquanto a cultura valorizar disponibilidade total e performance acima da saúde, o adoecimento continuará sendo interpretado como falha individual”, acrescentou Danny, especialista em terapia sistêmica familiar e em gestão de riscos psicossociais conforme a NR-1.

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