Turismo em Alagoas sob tensão: 16 desaparecimentos em apenas dois anos

O cenário é um verdadeiro cartão-postal: águas que variam entre o verde-esmeralda e o azul-turquesa, recifes de corais formando piscinas naturais e uma costa repleta de coqueiros. A Rota Ecológica dos Milagres, localizada no litoral norte de Alagoas, tornou-se, na última década, um destino cobiçado no Brasil, atraindo celebridades, casamentos luxuosos e turistas em busca de tranquilidade e preservação. No entanto, por trás dessa imagem de paraíso, um silêncio opressivo começou a se estabelecer. Nos últimos dois anos, a paisagem dos sonhos foi substituída por um pesadelo alarmante: 16 pessoas desapareceram sem deixar rastros em apenas 23 quilômetros da região.

O enigma se complicou ainda mais no último domingo (19), quando dois homens desapareceram em Passo de Camaragibe, um dos três municípios que integram a rota ao lado de São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras. Carlos Manoel Bezerra da Silva, com 20 anos, e Cícero Lins dos Santos Júnior, de 27 anos, são os novos nomes em uma lista que não para de crescer. O local que deveria ser sinônimo de acolhimento transformou-se em um espaço onde sair de casa pode significar nunca mais voltar.

Rastro do medo: Domingo de silêncio e disparos

Carlos Manoel foi visto pela última vez na noite do domingo. Ele informou à família que passaria a noite na casa da namorada. O que parecia ser um plano comum para um jovem de 20 anos não se concretizou. Horas após sua saída, o barulho que quebrou a tranquilidade da localidade do Jagatá não foram as ondas do mar, mas disparos de arma de fogo. Moradores relataram ouvir tiros exatamente na área pela qual Carlos teria passado. Desde então, seu celular permanece desligado e a esperança de encontrá-lo vivo enfrenta uma batalha difícil contra o tempo.

A poucos quilômetros dali, no mesmo dia, o destino de Cícero Lins dos Santos Júnior também se tornou incerto. Sua história ilustra o absurdo do cotidiano: ele havia recebido seu primeiro pagamento em um novo trabalho no sábado (18) e saiu no domingo com uma missão simples: buscar uma galinha para o jantar da família. Não retornou mais. Cícero havia se mudado recentemente da zona rural de Matriz de Camaragibe em busca de oportunidades na promissora Rota dos Milagres e agora deixou sua família à procura dele em áreas perigosas e inacessíveis, seguindo pistas vazias que se revelaram terríveis alarmes falsos.

Estratégia do “invisível”: A lógica macabra das facções

A princípio vistos como casos isolados, os desaparecimentos adquiriram características de uma operação coordenada. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) reconhece que essa região tornou-se um tabuleiro dominado pelo crime organizado. Informações da inteligência policial indicam que facções como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) estenderam suas atividades até esse paraíso alagoano.

A lógica por trás dos desaparecimentos, ao invés do tradicional assassinato com corpos expostos, é perversa e estratégica. Especialistas em segurança pública afirmam que a “invisibilidade” das vítimas é uma tática utilizada para garantir controle territorial sem chamar a atenção massiva da mídia e das autoridades. Um corpo encontrado gera uma ocorrência criminal imediata, elevando índices violentos e provocando ações policiais em larga escala que afetam o tráfico local. Ao fazer as vítimas “desaparecerem”, as facções aplicam terror psicológico nas comunidades enquanto mantêm os dados oficiais sob controle manipulado, evitando que o “turismo sustentável” seja manchado por evidências visíveis de violência.

As ordens para essa limpeza social estariam vindo de líderes foragidos do Comando Vermelho no Rio de Janeiro que controlam o tráfico na costa alagoana através de comunicações criptografadas e intermédios locais.

Luto sem corpo e o estigma da vítima

A partir de 2024, além dos 16 desaparecidos já mencionados, sete corpos foram descobertos na região; a maioria apresentava sinais claros de execução sumária. Entre os desaparecidos, a maioria deles é alarmantemente jovem: exceto Cristiano Henrique Pinto dos Santos, com 38 anos, todos os outros são jovens cheios de energia e potencial profissional. A lista inclui Maria Vitoria Chaves da Silva, uma mulher de 22 anos desaparecida desde dezembro passado sob o céu estrelado de São Miguel dos Milagres.

No entanto, há outra dor enfrentada pelas famílias: o estigma associado aos desaparecidos. Autoridades estaduais têm afirmado recentemente que todos os desaparecidos possuem alguma ligação com o tráfico ou com organizações criminosas. Para coronel Patrick Madeiro, secretário-executivo das Políticas Públicas de Segurança Pública do estado, isso é evidente: “Embora seja doloroso para os familiares envolvidos, essas pessoas têm vínculos com atividades criminosas”, declarou.

A generalização feita pelas autoridades agrava ainda mais a angústia das mães em Milagres. Um grupo delas tem contestado veementemente essa narrativa oficial; embora admitam que alguns filhos eram usuários recreativos ou dependentes químicos como maconha ou crack, negam qualquer envolvimento direto com as facções criminosas.

Pelas vozes dessas mulheres ecoa a sensação de injustiça diante das declarações das autoridades; elas sentem como se suas palavras fossem uma condenação antecipada às vítimas e uma justificativa para a ineficácia nas buscas realizadas até agora. Sem corpos identificáveis não há como emitir certidões óbvitas; sem esses documentos legais não existe luto formal nem direitos garantidos.

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A situação é alarmante ao perceber que pousadas luxuosas cobram diárias exorbitantes enquanto turistas internacionais compartilham imagens com a hashtag #Milagres nas redes sociais. Em contrapartida, moradores locais vivem sob um toque de recolher imposto por perfis anônimos online; mães que decidiram denunciar publicamente os desaparecimentos enfrentaram ameaças digitais constantes levando muitas famílias nativas a saírem silenciosamente dessa região paradisíaca.

A resposta governamental tem sido prometer maior investimento em inteligência policial. Ronilson Medeiros, responsável pelo setor relacionado aos desaparecidos em Alagoas reconhece a necessidade urgente por apoio mais humano: “Nossas investigações são feitas sem pré-julgamentos; nosso objetivo é encontrar as pessoas”. O Ministério Público estadual também está intervindo nesse cenário ao requisitar inquéritos detalhados para assegurar que o “mistério” envolvendo Milagres não seja simplesmente arquivado como mais um “ajuste de contas”.

No aguardo por resultados tangíveis das autoridades competentes, a Rota dos Milagres vive uma realidade dual perigosa: por um lado está a beleza deslumbrante responsável pela movimentação econômica e pelo fascínio mundial; por outro lado existe uma vala comum invisível onde sonhos jovens como os do Pedro Willian — aspirante a chef que postava receitas online antes do seu desaparecimento em Porto da Rua — são enterrados sem nome ou reconhecimento.

O décimo sexto desaparecimento nos últimos dois anos representa algo além de apenas uma estatística; é um clamor desesperado por socorro em uma região cada vez mais marcada pela presença criminosa. Se o turismo na região tem como base princípios preservacionistas, surge uma questão angustiante para moradores locais e familiares das vítimas: quem realmente está protegendo vidas na Rota? Até agora parece haver apenas ecos vazios deixados pelos 16 jovens cuja presença deveria ser relembrada pelas águas límpidas alagoanas.

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