Um estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM) revela que entre julho e setembro deste ano, 6,9 milhões de brasileiros foram impactados por eventos climáticos extremos relacionados ao fenômeno El Niño, abrangendo 1.035 cidades em todo o país.
Esses eventos resultaram em 25 fatalidades e aproximadamente 87,7 mil deslocamentos forçados, além de prejuízos econômicos calculados em R$ 12,6 bilhões, conforme indica o Boletim El Niño 2026/2027.
Os tipos de desastres registrados incluem secas, estiagens severas, ondas de calor, incêndios florestais, granizo, deslizamentos de terra e inundações, cujos impactos variam conforme a localização geográfica.
No norte e nordeste do Brasil, os principais problemas estão associados à falta de chuvas e ao aumento dos incêndios, afetando tanto a produção agrícola quanto o fornecimento de energia elétrica.
O fenômeno El Niño, que provoca um aquecimento anômalo das águas superficiais no Pacífico equatorial, atingiu uma intensidade histórica sem precedentes em 2026; segundo a Agência Meteorológica do Japão, as temperaturas nesse oceano chegaram a estar 4°C acima da média, superando o recorde anterior registrado em dezembro de 1997, que foi de 3,6°C.
Conhecido como El Niño–Oscilação Sul (ENOS), esse fenômeno altera a circulação atmosférica e os padrões climáticos em diversas regiões do mundo de maneira irregular. Normalmente ocorre em ciclos que variam entre dois a sete anos, alternando com períodos neutros e com o fenômeno oposto, La Niña, que resfria as águas do Pacífico equatorial.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta que o fenômeno continuará se intensificando e deverá atingir seu pico máximo em dezembro de 2026, com potencial para persistir até fevereiro de 2027. Espera-se uma ocorrência maior de chuvas intensas e tempestades acompanhadas de raios e granizo nas regiões sudeste e sul do Brasil. Na parte norte e nordeste do país, a previsão é de seca severa; enquanto na região centro-oeste a irregularidade das chuvas se combina com ondas de calor prejudiciais às safras.
Dentre os danos estimados pela CNM, R$ 8,8 bilhões referem-se a perdas no setor privado; R$ 3,6 bilhões são atribuídos a prejuízos públicos; e R$ 283,4 milhões correspondem aos danos em habitações. O boletim registrou um total de 808 residências destruídas e outras 47.888 danificadas. Aproximadamente 50 mil imóveis foram afetados no total.
No campo das perdas públicas, o abastecimento de água potável respondeu por R$ 1,8 bilhão – representando metade dos R$ 3,6 bilhões totais nessa categoria. Danos à infraestrutura pública somaram R$ 557,8 milhões; já as despesas relacionadas à saúde pública e assistência médica chegaram a R$ 562,8 milhões.
A atividade agrícola foi identificada como a mais afetada economicamente. O boletim da CNM estima os prejuízos nesse setor em cerca de R$ 5,6 bilhões durante o período analisado. A pecuária teve perdas complementares estimadas em R$ 1,7 bilhão; o comércio registrou R$ 895,8 milhões; os serviços contabilizaram R$ 383 milhões; enquanto a indústria acumulou danos na ordem de R$ 123,8 milhões.
A região Nordeste liderou os prejuízos econômicos no levantamento da CNM com um total aproximado de R$ 5,7 bilhões. Em seus nove estados, foram declarados estados de emergência em 319 municípios devido aos desastres naturais que afetaram cerca de 1,4 milhão de cidadãos. As perdas específicas na agricultura alcançaram R$ 3,4 bilhões.
A prolongada estiagem compromete o abastecimento hídrico e prejudica tanto a produção alimentar quanto as atividades econômicas dependentes da água. No semiárido brasileiro, a diminuição das chuvas pode acentuar problemas nos reservatórios e açudes disponíveis para irrigação além de aumentar a vulnerabilidade para pequenos agricultores e comunidades rurais.
A situação também preocupa a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Em seu relatório referente ao mês de setembro divulgado em outubro passado, a agência apontou que a seca afeta atualmente 96% da área total do Nordeste brasileiro. A região apresenta o quadro mais severo do país enquanto o fenômeno se expande também na região Norte.
O Sudeste figura como segunda região mais impactada no levantamento da CNM com perdas estimadas em R$ 4 bilhões. Ventos fortes acompanhados por granizo causaram danos em mais de três mil moradias além da queda de árvores e postes que resultaram na interrupção do fornecimento elétrico.
Minas Gerais destaca-se como o estado mais impactado dentro dessa região: mais de novecentas mil pessoas foram atingidas. O boletim aponta que os prejuízos acumulados no estado somaram mais de R$ 2,1 bilhões devido à seca e estiagem além dos R$ 1,2 bilhão gerados pelo excesso pluviométrico.
No Sul do Brasil os prejuízos totais foram avaliados em aproximadamente R$ 1,8 bilhão. O levantamento constatou que cerca de 2,2 milhões pessoas foram afetadas por desastres climáticos nos seus respectivos municípios onde também foram decretadas situações anormais em quatrocentos e dezenove localidades. Chuvas intensas causaram alagamentos significativos além da ocorrência registrada até mesmo tornados.
A região enfrenta um padrão climático distinto daquele observável nas regiões Norte e Nordeste; conforme as previsões elaboradas pelo Painel El Niño para o período entre outubro e dezembro há uma maior probabilidade de chuvas acima da média na parte sul do país concomitantemente ao risco elevado para cheias.
No Norte do Brasil as condições climáticas têm resultado em diminuição das precipitações e aumento das temperaturas provocando vazantes nos rios Amazonas, Madeira e Tapajós. A CNM estima que mais de um milhão e duzentas mil pessoas tenham sido impactadas nessa região gerando um total aproximado de R$ 822,7 milhões em prejuízos econômicos. A baixa nos níveis dos rios compromete não apenas a navegação mas também dificulta o transporte essencial como alimentos e combustíveis para comunidades ribeirinhas isoladas.
A ANA também advertiu sobre riscos relacionados à redução das vazões nos rios amazônicos podendo impactar negativamente na navegação local assim como no abastecimento público e na geração hidrelétrica dentro dessa área onde muitos dependem dos rios como principais rotas comerciais.
No Centro-Oeste brasileiro incêndios florestais associados à baixa umidade atmosférica marcaram este período crítico. O boletim registra perdas regionais estimadas em R$ 281,9 milhões destacando Mato Grosso do Sul como o estado mais afetado pelos incêndios com cerca de R$175 milhões em danos. Além disso houve registros significativos relacionados às chuvas fortes ocorridas nos municípios goianos bem como no Mato Grosso e Distrito Federal.








