A Fundação SOS Mata Atlântica revelou que o rio Tietê não possui trechos completamente isentos de poluição. Essa afirmação resulta da pesquisa realizada durante a Expedição Tietê 2025, em colaboração com instituições acadêmicas e centros de pesquisa.
Os resultados das análises indicam que o rio apresenta diversas formas de contaminação, incluindo a microbiológica, química, farmacológica, plástica, agrícola e orgânica.
O estudo abrangeu mais de 1.100 quilômetros do rio, desde sua nascente em Salesópolis (SP) até a confluência com o rio Paraná em Itapura (SP), onde foram detectados microplásticos em todas as amostras coletadas. Além disso, foram encontrados 25 tipos diferentes de agrotóxicos e 16 substâncias relacionadas a medicamentos e drogas ilícitas.
A coleta das amostras ocorreu em 14 locais entre os dias 9 e 14 de junho de 2025.
A expedição evidenciou que a questão da poluição vai além das áreas urbanas. Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa na Fundação SOS Mata Atlântica, comentou: “A percepção comum é que o esgoto é o único problema do nosso rio, mas este estudo demonstra que a realidade é muito mais complexa.”
Ele também observou que “mesmo em regiões bem preservadas como o Parque da Nascente do Tietê, ainda se nota a influência das atividades humanas nas proximidades. Isso reforça a necessidade de cuidarmos dos nossos rios”.
Diversos fatores contribuem para as diferentes formas de contaminação ao longo do percurso do Tietê, refletindo aspectos como urbanização, tratamento inadequado de esgoto, práticas agrícolas e mudanças no uso do solo dentro da bacia hidrográfica.
Veronesi explicou: “Os desafios são variados; o rio atravessa áreas protegidas perto da nascente até regiões onde há cultivo intensivo de hortifrútis em Biritiba Mirim e Mogi das Cruzes. Em seguida, ele passa por áreas altamente urbanizadas com grande concentração populacional e por zonas agrícolas focadas na monocultura, revelando como temos utilizado o solo”.
A presença dos 25 agrotóxicos identificados confirma que a poluição no Tietê não se limita às regiões urbanas. Nos trechos Médio e Baixo do Tietê, os dados mostram uma maior influência da atividade agrícola relacionada ao cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros. As análises também revelaram níveis elevados de metais pesados como cobre – um subproduto associado a fungicidas agrícolas, descargas industriais e desgaste de tubulações.
“É alarmante encontrar atrazina, um herbicida banido na União Europeia desde 2004 e ainda amplamente utilizado no Brasil. Detetamos sua presença no Tietê acima dos limites permitidos em alguns locais”, alertou a SOS Mata Atlântica. Segundo a organização, essa descoberta ressalta a urgência de incrementar o monitoramento das substâncias utilizadas na agricultura e seus impactos nos recursos hídricos.
“No setor agrícola, precisamos repensar tanto os produtos utilizados quanto suas quantidades nas lavouras. Uma parte significativa disso acaba sendo levada para os rios, indicando um uso inadequado desses insumos. Alguns deles nem deveriam ser utilizados devido aos danos que causam à saúde humana e ao meio ambiente”, avaliou.
No que diz respeito às indústrias, Veronesi enfatizou que tanto a seleção das matérias-primas quanto o descarte final dos produtos devem ser cuidadosamente considerados.
“Observamos muitos fios de microplástico provenientes das roupas durante as lavagens. O descarte adequado deve ser uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos e empresas sob supervisão governamental.”
A identificação das 16 substâncias entre fármacos e drogas ilegais – como cocaína e seu metabólito benzoilecgonina, além de carbamazepina, diclofenaco e losartana – indica claramente a influência humana no rio segundo a SOS Mata Atlântica. A cafeína foi encontrada em todos os pontos analisados e serve como um indicador da contaminação por esgoto doméstico.
Os dados microbiológicos revelam a presença de bactérias fecais, patógenos e parasitas associados a doenças gastrointestinais. A entidade observa que o conjunto dos contaminantes reflete os hábitos consumistas da população, uso indiscriminado de medicamentos, difusão de substâncias ilegais e falhas no tratamento do esgoto que permitem que esses resíduos cheguem aos corpos d’água.
Veronesi ressaltou ainda que os impactos não ocorrem isoladamente.
“Microplásticos podem servir como transportadores para agrotóxicos e medicamentos. O excesso orgânico favorece o crescimento excessivo de microrganismos reduzindo a oxigenação da água e dificultando a decomposição natural dos poluentes”, explicou.
Diante desse cenário preocupante, a SOS Mata Atlântica defende que a recuperação do rio Tietê exige uma abordagem integrada em toda sua bacia hidrográfica. Essa abordagem deve incluir melhorias no saneamento básico, fiscalização rigorosa, planejamento territorial adequado, mudanças nas práticas agropecuárias e monitoramento contínuo da qualidade ambiental.
“O estudo tem exatamente esse objetivo: evidenciar os diversos fatores que contaminam as águas do Rio Tietê para que cada parte envolvida assuma suas responsabilidades. É prioritário para as autoridades atuarem de forma mais integrada visando soluções efetivas para melhorar a qualidade da água, especialmente envolvendo os comitês responsáveis pela gestão hídrica no Brasil”, concluiu Veronesi.








