Cientistas brasileiras revelam nova espécie na Antártida, ampliando horizontes sobre a sobrevivência no extremo frio

Uma equipe de pesquisadoras brasileiras do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) fez uma importante descoberta ao identificar uma nova espécie de arqueia que consegue sobreviver em ambientes extremos, com temperaturas que chegam próximas aos 100 °C.

Essa nova espécie foi analisada a partir de amostras obtidas na Ilha Deception, um vulcão ativo situado no oceano Antártico, conforme informações divulgadas pela Fapesp.

O estudo, que foi publicado em março na revista científica ISME Communications, revela que esta linhagem inédita de arqueia recebeu o nome de Candidatus Pyroantarcticum pellizari. Trata-se de um organismo extremófilo adaptado a condições adversas, como as águas gélidas da região antártica.

Os microrganismos foram encontrados na caldeira de um vulcão ativo na Ilha Deception, conhecida por ser uma das áreas mais geologicamente desafiadoras do continente. Nesse local, águas muito frias se misturam a sedimentos aquecidos pelas atividades geotérmicas, criando um ambiente onde as temperaturas são quase iguais ao ponto de ebulição da água e estão repletas de enxofre e metais.

O ambiente ácido e com baixo nível de oxigênio apresenta variações bruscas de temperatura, condições que poderiam danificar moléculas de DNA e proteínas em organismos comuns. Entretanto, as extremófilas possuem genes especializados que as protegem desse estresse ambiental.

As arqueias pertencem a um dos três principais domínios da vida, juntamente com bactérias e eucariontes. Essas formas microscópicas de vida são consideradas algumas das mais antigas do planeta, com estimativas indicando sua existência há mais de 3,5 bilhões de anos.

A composição bioquímica das arqueias as diferencia das bactérias. Elas possuem uma estrutura molecular mais similar à dos eucariontes e têm seus próprios domínios evolutivos. Além disso, a maneira como leem o DNA e sintetizam proteínas é mais próxima da dos humanos do que da das bactérias. Enquanto essas últimas podem ser encontradas em praticamente todos os habitats terrestres, as arqueias são notórias por sua resistência em condições extremas, como alta salinidade, temperaturas elevadas e ambientes ácidos.

Outro ponto importante é que as arqueias não causam efeitos nocivos aos seres humanos como as bactérias patogênicas, responsáveis por diversas doenças como a tuberculose.

Embora desempenhem um papel crucial como “espelhos” evolutivos, as arqueias permanecem pouco estudadas devido à dificuldade em serem cultivadas em laboratório, conforme apontado pela Agência Fapesp.

A identificação da nova espécie foi realizada utilizando a técnica da metagenômica. Em vez de cultivar organismos individualmente, os pesquisadores sequenciam diretamente todo o material genético presente em uma amostra ambiental e utilizam softwares avançados para reorganizar milhões de fragmentos de DNA e reconstruir genomas.

No caso específico da Pyroantarcticum pellizari, as cientistas conseguiram reconstruir o genoma utilizando amostras coletadas durante expedições do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) em 2014.

Este programa apoia investigações científicas na Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base brasileira que ocupa uma área de 4 mil metros quadrados na Ilha Rei George, situada aproximadamente 130 km da Península Antártica. A estação foi inaugurada em 1984.

A coleta das amostras foi realizada pela pesquisadora Amanda Bendia durante seu doutorado, segundo informações veiculadas na revista científica mencionada anteriormente.

A nova arqueia está associada à família Pyrodictiaceae, um grupo conhecido por incluir microrganismos hipertermófilos que habitam fontes hidrotermais profundas. Esses organismos prosperam em temperaturas superiores a 80 °C e necessitam de adaptações bioquímicas extremamente sofisticadas para sobreviver nessas condições adversas.

Análises filogenéticas sugerem que o organismo descoberto pode representar um novo gênero dentro da família Pyrodictiaceae.

Um aspecto significativo dessa descoberta é sua relevância para a astrobiologia — área dedicada ao estudo da possibilidade de vida fora do planeta Terra. Luas geladas do Sistema Solar, como Europa e Encélado, possuem oceanos sob camadas espessas de gelo que podem apresentar condições similares às encontradas no habitat deste organismo recém-identificado.

As autoras do estudo afirmam que a Pyroantarcticum pellizari fortalece a hipótese sobre a possibilidade de formas microbianas existirem em mundos gélidos sem depender necessariamente da luz solar para sua sobrevivência.

Related Posts

Fruta ameaçada do Brasil promete combate ao envelhecimento das células

Uma fruta nativa da Mata Atlântica e pouco conhecida pelos brasileiros tem elevado potencial nutricional e é rica em antioxidantes naturais. O cambuci, de sabor e aroma intensos, que lembram a acidez do limão, mas com um leve dulçor refrescante seguido de amargor, é rico em vitamina C e originário das regiões de Mata Atlântica […]

Aumento das fatalidades por calor na Espanha dispara e gera preocupação com o clima

A Espanha registrou 101 mortes relacionadas ao calor em maio, um recorde para o mês desde que as estatísticas começaram a ser coletadas em 2015, anunciou o Ministério da Saúde nesta quarta-feira (3). “Esse número é 3,6 vezes maior que a média de mortes relacionadas ao calor registradas em maio na última década, o que […]

Deixe um comentário