Descoberta de fóssil inédito em SP desvenda segredos da evolução das serpentes

Um fóssil descoberto na área urbana de Presidente Prudente, localizada no interior do estado de São Paulo, possui uma idade estimada em mais de 75 milhões de anos e pode contribuir significativamente para a compreensão da origem e diversidade das serpentes brasileiras.

O achado consiste em um fragmento preservado do crânio e mais de 100 vértebras articuladas pertencentes a uma nova espécie de serpente, denominada Tametara mirim, conforme revela um estudo publicado na revista Nature.

A pesquisa foi conduzida pelo paleontólogo Tiago Simões, que leciona na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. O estudo envolveu a colaboração de pesquisadores de diversas instituições situadas no Brasil, Europa, América do Norte e Austrália.

Esta serpente apresenta adaptações significativas para a vida subterrânea e sugere que os primeiros membros da linhagem das serpentes já estavam em evolução durante o Cretáceo Superior, um período geológico caracterizado pelo auge e eventual extinção dos dinossauros.

Enquanto algumas espécies desenvolviam habilidades para escavar o solo, outras habitavam a superfície terrestre ou exploravam ambientes aquáticos.

A investigação aborda uma antiga controvérsia na paleontologia sobre qual ambiente favoreceu o aparecimento das primeiras serpentes. Duas hipóteses principais foram levantadas: uma sugere que essas criaturas evoluíram a partir de ancestrais adaptados à vida subterrânea, resultando na perda dos membros e no alongamento do corpo para facilitar a movimentação em túneis.

A outra hipótese aponta para uma origem vinculada a ambientes aquáticos, respaldada pela descoberta de fósseis de serpentes marinhas primitivas.

O artigo apresenta uma nova perspectiva sobre essa discussão: é provável que a evolução inicial das serpentes não tenha seguido um único caminho ecológico, como demonstram as análises da nova espécie encontrada.

A Tametara mirim existiu durante o Cretáceo Superior, entre cerca de 85 milhões e 75 milhões de anos atrás, em uma região que atualmente corresponde ao oeste do estado de São Paulo, mas que era muito diferente na época. Este fóssil foi descoberto na Formação Adamantina, parte do Grupo Bauru, no Sítio Paleontológico José Martin Suárez em Presidente Prudente, local conhecido por suas descobertas do período Cretáceo.

Considerado um dos fósseis mais bem preservados encontrados no Brasil, ele passou por microtomografia computadorizada de alta resolução no Laboratório de Caracterização Tecnológica da Escola Politécnica da USP. Esse processo possibilitou a criação de imagens tridimensionais das estruturas internas do fóssil sem causar danos aos ossos.

Com base nas análises realizadas, a Tametara mirim era um animal pequeno com aproximadamente 42 centímetros de comprimento e um crânio medindo cerca de 3,3 centímetros. Contudo, o tamanho total não pôde ser determinado devido à ausência de partes em sua estrutura.

Apesar das suas dimensões modestas, seu crânio apresenta uma mistura intrigante entre características primitivas e especializações raras, incluindo uma crista sagital bem desenvolvida ao longo da linha média do topo do crânio que potencializa sua capacidade de mordida.

A microtomografia possibilitou também a reconstrução digital desse espaço interno e a estimativa sobre a anatomia cerebral e do ouvido interno da serpente, que podem fornecer indícios sobre seu comportamento e habitat.

No caso específico da Tametara, as características do cérebro e do ouvido interno, assim como a microestrutura dos ossos cranianos e comparações estatísticas com espécies contemporâneas indicam que se tratava de um animal fossorial, adaptado à vida sob o solo.

A equipe utilizou um novo quadro analítico para comparar as características anatômicas entre serpentes fósseis e atuais. Entre elas estava a Dinilysia patagonica, outra serpente extinta do Cretáceo encontrada na Argentina.

A comparação revelou diferenças significativas nas anatomias neurocranianas dessas espécies e nos ambientes que cada uma ocupava.

A nova pesquisa sugere uma visão mais dinâmica sobre a evolução inicial das serpentes, englobando linhagens aquáticas, terrestres superficiais e subterrâneas. Em suma, é provável que o processo evolutivo das serpentes tenha envolvido múltiplas adaptações e experimentações ecológicas desde os seus primeiros estágios conhecidos.

 

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