Uma pesquisa divulgada na revista Nature Geoscience desvenda o enigma das Cataratas de Sangue, um dos fenômenos naturais mais fascinantes da Antártida. Esse espetáculo, que consiste em água salgada com uma coloração vermelho-vivo, flui sobre a superfície do Lago Bonney, localizado na Terra de Vitória.
A descoberta das cataratas remonta a 1911, quando o geólogo Thomas Griffith Taylor as identificou na geleira que posteriormente foi nomeada Geleira Taylor. Desde então, essa região tem sido um importante campo de estudo para a investigação de formas de vida extremas, incluindo aquelas que podem existir em outros mundos, devido à presença de microrganismos e restos biológicos primitivos encontrados na água.
A Geleira Taylor é lar de antigos microrganismos marinhos que estiveram isolados sob o gelo por centenas de milhares de anos, conforme apontam as investigações feitas pela equipe científica. Esses organismos estão localizados em um sistema subterrâneo alimentado por salmoura.
O recente estudo analisou 167 amostras de água, sedimentos, gelo e ar coletadas nos Vales Secos de McMurdo. Os resultados mostraram que os microrganismos encontrados incluem diatomáceas, haptófitas, dinoflagelados e ciliados, típicos de ambientes marinhos. Além disso, até 9,34% dos eucariotos identificados nas Cataratas de Sangue também são encontrados no oceano próximo.
Os pesquisadores sugerem que esses dados fortalecem a hipótese de que a salmoura se origina da água do mar que ficou aprisionada sob a geleira em um período em que os níveis oceânicos eram mais altos e a cobertura de gelo era menor.
A coloração avermelhada da água, característica do fenômeno, resulta de uma reação química envolvendo ferro. A água contida no interior da geleira está isolada do oxigênio atmosférico e apresenta grandes quantidades de ferro dissolvido. Quando a salmoura emerge através das fendas no gelo e entra em contato com o ar, ocorre oxidação. Esse processo gera óxidos de ferro – substâncias responsáveis pela formação da ferrugem – que conferem à água sua tonalidade vermelho-escura.
Além disso, devido ao elevado nível de salinidade da salmoura, a água escorre em estado líquido mesmo quando as temperaturas atingem –7 °C.
A pesquisa também revela que vários organismos presentes na geleira possuem genes relacionados à fotossíntese e mecanismos para reparar o DNA como forma de resposta ao estresse ambiental gerado pela exposição ao frio extremo, alta salinidade e baixa disponibilidade de nutrientes.
Essas características fazem das Cataratas de Sangue um dos ambientes naturais mais explorados por cientistas interessados nos limites da vida na Terra.
Com uma altura aproximada de 15 metros, as cataratas são alimentadas por canais subterrâneos repletos de salmoura. Esses canais conseguem transportar água líquida sob uma espessa camada de gelo devido à combinação entre pressão elevada, salinidade e calor gerado durante processos parciais de congelamento.
No contexto geral, a Antártida concentra cerca de 70% da água doce do planeta em forma congelada. Ambientes altamente salinos e isolados sob algumas dessas geleiras são considerados análogos naturais aos oceanos subterrâneos presentes nas luas geladas do Sistema Solar, como Europa (de Júpiter) e Encélado (de Saturno).





