Quarenta mil brasileiros diagnosticados anualmente com câncer enfrentam atrasos de até 80% nas descobertas da doença

A Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) revelou um dado preocupante: anualmente, cerca de 40 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço são registrados no Brasil, conforme estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA).

Apesar dos progressos nos métodos de tratamento, entre 70% e 80% dos pacientes são diagnosticados em estágios avançados da doença, o que diminui as possibilidades de cura e torna os tratamentos mais desafiadores.

Esse cenário alarmante ganha relevância durante a campanha “Julho Verde 2026”, uma iniciativa global focada na conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço. Este ano, o tema é From Awareness to Action: One World, One Voice Against Head & Neck Cancer (“Da Conscientização à Ação: Um Mundo, Uma Voz Contra o Câncer de Cabeça e Pescoço”).

A campanha visa motivar a população a transformar conhecimento em ação, incentivando a busca por avaliação médica ao perceber os primeiros sinais da enfermidade.

Segundo a SBCCP, o câncer de cabeça e pescoço ocupa atualmente a terceira posição entre os tipos mais prevalentes no Brasil. Essa categoria abrange tumores que afetam áreas como boca, língua, garganta, laringe, faringe e tireoide. A Região Sudeste concentra a maior parte dos casos, com cerca de 20.470 diagnósticos anuais, seguida pelo Nordeste com aproximadamente 10.070 novos casos por ano.

Sílvia Picado, médica especializada em cirurgia de cabeça e pescoço e diretora social da Associação Paulista de Medicina – Santos, enfatizou que o diagnóstico tardio permanece como um dos principais obstáculos no combate à doença.

“Muitos pacientes desconsideram sintomas simples como rouquidão persistente, feridas bucais que não cicatrizam ou nódulos no pescoço. Quando buscam ajuda médica, frequentemente já estão em estágios avançados da doença. O principal objetivo do ‘Julho Verde’ é reverter essa situação”, declarou.

Os fatores de risco mais significativos continuam sendo o uso do tabaco e o consumo excessivo de álcool, que contribuem para muitos tumores nas regiões da boca, garganta e cordas vocais.

A infecção pelo HPV também está ligada ao aumento dos casos de câncer na orofaringe. Além disso, a exposição solar sem proteção é um fator relevante para o surgimento do câncer de pele nessa área frequentemente exposta, incluindo os lábios.

A médica destacou que muitos desses casos poderiam ser evitados com mudanças nos hábitos diários. “Deixar de fumar, diminuir a ingestão alcoólica, vacinar-se contra o HPV, usar protetor solar regularmente, manter uma boa higiene bucal, ter uma dieta equilibrada, praticar atividades físicas e procurar atendimento médico ao notar sintomas persistentes são atitudes essenciais”, afirmou.

Sinais de alerta

Dentre os principais sinais que devem ser observados estão feridas bucais que não cicatrizam após 15 dias ou mais, manchas avermelhadas ou esbranquiçadas na boca, rouquidão prolongada, dificuldade para engolir alimentos, alterações respiratórias e nódulos persistentes no pescoço.

A especialista enfatizou que um diagnóstico precoce pode aumentar significativamente as chances de cura. “Quando detectada nas fases iniciais, a taxa de cura pode ultrapassar 90%, além de permitir tratamentos menos invasivos e que causam menor impacto na qualidade de vida do paciente”, alertou Sílvia.

Embora tecnologias avançadas como monitoramento nervoso, laserterapia, instrumentos ultrassônicos e até cirurgias robóticas tenham melhorado consideravelmente a eficácia dos tratamentos disponíveis, especialistas ressaltam que a prevenção aliada ao diagnóstico precoce continua sendo a abordagem mais eficaz.

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