A Ciência Revela: Gado Bovino Substitui Gigantes da Era do Gelo no Pampa Brasileiro

Atualmente, o gado bovino é considerado um dos ícones do Pampa brasileiro; no entanto, ele não desempenha a mesma função ecológica que os grandes animais que habitavam essa região durante a última Era do Gelo. Essa afirmação é resultado de uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Swansea University, no Reino Unido, cujo trabalho foi publicado na revista Functional Ecology.

O estudo revela que, quase 12 mil anos após a extinção da megafauna sul-americana, o ecossistema do Pampa ainda não conseguiu restaurar sua diversidade funcional.

A questão vai além da simples extinção de espécies; refere-se também à perda de várias funções ecológicas que eram exercidas por criaturas como mastodontes, preguiças-gigantes, gliptodontes e cavalos selvagens, cujos papéis atualmente não têm equivalentes na fauna contemporânea.

Os pesquisadores destacam que, embora o gado bovino realize algumas funções que antes pertenciam aos grandes herbívoros, ele não substitui funcionalmente nenhuma das espécies que foram extintas. Além disso, muitos mamíferos introduzidos pelos seres humanos exercem papéis ecológicos semelhantes entre si, o que resulta em uma fauna atual menos diversificada do ponto de vista funcional.

Os grandes herbívoros desempenhavam um papel crucial no controle do crescimento da vegetação nos campos do Pampa. Eles ajudavam na dispersão de sementes ao longo de grandes distâncias, reciclavam nutrientes através das fezes e criavam microambientes favoráveis à sobrevivência de diversas outras espécies.

A equipe de pesquisadores analisou três fases diferentes da história natural do Pampa: o Pleistoceno, período anterior à extinção da megafauna; o Holoceno, após essas extinções; e a era atual, marcada pela introdução de novas espécies pelo ser humano.

No decorrer da análise, foram utilizados fósseis de megafauna encontrados especialmente no Rio Grande do Sul, área reconhecida por seus importantes registros paleontológicos desse bioma.

  • Leia também: Estudos revelam passado pré-histórico do Brasil, que abrigava espécies raras de megafauna – Revista Fórum

<pDurante o Pleistoceno, que se estendeu de aproximadamente 2,6 milhões até 11.700 anos atrás, a América do Sul era lar para uma impressionante variedade de mamíferos gigantes. Entre essas espécies estavam as preguiças-gigantes, com mais de quatro metros de comprimento; gliptodontes (parentes distantes dos tatus com enormes carapaças); mastodontes (relacionados aos elefantes) e até tigres-dentes-de-sabre.

Os resultados obtidos mostram que a transição entre o Pleistoceno e o Holoceno resultou em uma redução aproximada de 30% na diversidade taxonômica — ou seja, no número total de espécies de mamíferos terrestres — e uma diminuição ainda mais acentuada de cerca de 40% na diversidade funcional do Pampa.

A pesquisa concluiu que os animais domesticados como bovinos e cavalos apresentam alta “redundância funcional”, indicando que muitos deles exercem funções ecológicas semelhantes. Por outro lado, outras funções essenciais deixaram de existir com a extinção da megafauna.

No entanto, algumas espécies introduzidas podem desempenhar funções antes atribuídas aos mamíferos extintos. Exemplos são o cavalo doméstico (Equus ferus caballus), cuja funcionalidade é semelhante à do cavalo sul-americano extinto Equus neogeus, e o cervo-axis (Axis axis), espécie exótica originária do sul da Ásia que pode preencher parte do espaço funcional anteriormente ocupado por cervídeos nativos como Antifer ensenadensis.

A presença dessas novas espécies aumentou em cerca de 12% a riqueza funcional do Pampa. Contudo, isso não implica automaticamente que as espécies exóticas invasoras sejam benéficas ao ecossistema; elas também podem competir com as nativas e alterar dinâmicas ecológicas existentes. Os autores enfatizam a necessidade de estudos adicionais para investigar esses efeitos.

A pesquisa também destaca que todos os mamíferos sul-americanos com peso superior a aproximadamente 500 quilos desapareceram durante a passagem entre as eras Pleistocena e Holocena. Esse fenômeno é atribuído a uma combinação das mudanças climáticas no final da última glaciação e ao aumento populacional humano no continente que intensificou a caça desses animais.

Dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que apenas 47,3% da vegetação nativa do Pampa permanece intacta atualmente. Além disso, apenas cerca de 3% dessa área está protegida por unidades de conservação.

A maior parte da paisagem original foi transformada para práticas agropecuárias, com destaque para pecuária extensiva e recentes monoculturas voltadas para soja e silvicultura.

Pela análise feita por Pedro Godoy, professor no Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da USP e um dos colaboradores deste estudo, embora a presença do gado represente uma mudança ecológica significativa em relação ao ambiente original do Pleistoceno, essa alteração pode ser menos prejudicial em comparação à conversão dos campos naturais em monoculturas agrícolas.

Ainda que tenham se passado quase 12 mil anos desde a extinção da megafauna sul-americana, os pesquisadores apontam que a tendência ao desaparecimento dos grandes mamíferos persiste até hoje.

No presente momento, grande parte da megafauna terrestre remanescente está concentrada na África e é representada por espécies como elefantes, rinocerontes e girafas. Esses animais estão entre os grupos mais ameaçados globalmente devido à perda habitat natural, caça ilegal e conflitos com atividades humanas além das mudanças climáticas.

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