Localizado a apenas cinco quilômetros da icônica Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, encontra-se um tesouro natural pouco explorado: o Monumento Natural (Mona) do Arquipélago das Ilhas Cagarras. Esta unidade de conservação federal é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O arquipélago é composto por ilhas rochosas que abrigam uma das áreas marinhas mais significativas para a ecologia do litoral brasileiro, servindo como santuário para diversas aves marinhas, além de espécies ameaçadas e endêmicas.
Essas ilhas também fazem parte da rota migratória de golfinhos e baleias-jubarte, protegem habitats cruciais para a reprodução de peixes com valor comercial e conservam sítios arqueológicos que testemunham antigas ocupações humanas.
Vista aérea das Ilhas Cagarras. Créditos: Google
Recentemente, as ilhas passaram a oferecer uma nova forma de visitação controlada: a Trilha da Comprida. Inaugurada na Ilha Comprida, essa trilha foi integrada à Trilha Transcarioca como seu primeiro trecho totalmente voltado para o mar.
Estabelecido por decreto federal em 13 de abril de 2010, o Monumento Natural das Ilhas Cagarras tem como principal objetivo a proteção dos ecossistemas insulares e marinhos localizados em frente às praias da Zona Sul do Rio.
A unidade abrange as ilhas Cagarra, Comprida, Palmas e Redonda, além das ilhotas Filhote da Cagarra e Filhote da Redonda. Juntas, elas ocupam cerca de 91 hectares de área terrestre e aproximadamente 7.500 hectares de área marinha protegida, conforme informações do ICMBio.
Arquipélago das Ilhas Cagarras. Créditos: Wikipedia
Apesar da proximidade com uma das maiores cidades da América Latina, o arquipélago preserva uma rica diversidade biológica devido ao seu isolamento natural e às restrições impostas após se tornar uma unidade de conservação.
Antes do reconhecimento como monumento natural, as ilhas eram frequentemente utilizadas para atividades irregulares como desembarques clandestinos, festas e pesca predatória, o que resultou na degradação da vegetação e perturbação das colônias reprodutivas de aves marinhas. O fechamento temporário à visitação ajudou na recuperação gradual dos ecossistemas locais.
Pesquisas realizadas por instituições acadêmicas e pelo ICMBio documentaram colônias de aves como a fragata (Fregata magnificens), atobá-marrom (Sula leucogaster), gaivota-de-cabeça-cinza (Chroicocephalus cirrocephalus) e cagarra (Calonectris borealis), ave que deu nome ao arquipélago.
A vegetação predominante é composta por espécies adaptadas a ambientes costeiros e afloramentos rochosos, além de abrigar répteis e invertebrados endêmicos exclusivos dessa região insular.
No período entre junho e novembro, é possível observar as baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) durante sua migração anual em direção às áreas reprodutivas do litoral brasileiro.
As águas ao redor também servem como berçário e local de alimentação para diversas espécies de peixes recifais e pelágicos com relevância econômica, promovendo o fenômeno conhecido como “efeito de transbordamento”, onde populações protegidas dentro da unidade ajudam a repovoar áreas pesqueiras adjacentes.
No ano de 2021, o arquipélago foi agraciado com um importante reconhecimento internacional no campo da conservação marinha.
As Ilhas Cagarras e parte das águas adjacentes à Zona Sul do Rio foram designadas como Hope Spot (Ponto de Esperança) pela organização Mission Blue, liderada pela renomada oceanógrafa Sylvia Earle.
Com isso, as Cagarras tornaram-se apenas o segundo Hope Spot no Brasil, juntando-se ao Banco dos Abrolhos.
A seleção considerou aspectos como riqueza biológica, importância científica, potencial para recuperação ambiental, relevância econômica para a pesca e valor cultural para a comunidade local.
Nova trilha marca reabertura da visitação
Depois de mais de dez anos com restrições ao desembarque nas ilhas, a Ilha Comprida agora acolhe visitantes através da recém-inaugurada Trilha da Comprida. Essa trilha foi projetada para minimizar os impactos ambientais durante as visitas.
A trilha possui uma extensão total de 1,2 quilômetro e apresenta um nível moderado a alto de dificuldade. O acesso é realizado exclusivamente por via marítima.
A experiência começa com um mergulho seguido por uma natação aproximada de 30 metros até alcançar a ilha. Após isso, os visitantes sobem pelo costão rochoso antes do início efetivo da caminhada.
Pelo caminho foram instaladas placas interpretativas que fornecem informações sobre geologia, vegetação nativa, aves marinhas presentes na região, fauna costeira e os processos naturais que formaram o arquipélago.
Diversas opções de percurso estão disponíveis aos visitantes:
- Bate e volta: 400 metros;
- Circuito curto: 800 metros;
- Circuito completo: 1.200 metros.
Toda a visitação segue normas estabelecidas pelo ICMBio que incluem limites na quantidade de visitantes permitidos e protocolos específicos visando evitar impactos negativos sobre a fauna e flora locais.
A nova trilha representa também um marco importante para a Trilha Transcarioca, uma das extensas trilhas longas do Brasil.
Totalizando cerca de 180 quilômetros, ela conecta Barra de Guaratiba na Zona Oeste do Rio ao Morro da Urca atravessando diversos parques nacionais, estaduais e municipais. Com a inclusão da Ilha Comprida como parte dessa rota oceânica protegida nas Ilhas Cagarras amplia-se o conceito original da Transcarioca incorporando ambientes marinhos valiosos。
A sinalização segue os padrões estabelecidos pela Rede Brasileira de Trilhas Longo Curso com as tradicionais marcas amarelas e pretas que orientam os caminhantes durante todo o percurso.








