O Brasil está em busca de se unir a um grupo restrito de nações que dominam as inovações em voo hipersônico.
Com esse objetivo, o país colabora com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), ligado ao Comando da Aeronáutica, para desenvolver o 14-X, um demonstrador tecnológico que representa uma plataforma nacional de voo hipersônico. Essa plataforma atinge velocidades superiores a Mach 5, equivalente a aproximadamente 6.120 km/h ao nível do mar, e é equipada com motores scramjet, considerados uma das mais desafiadoras tecnologias na engenharia de propulsão aeroespacial.
A sigla scramjet refere-se a Supersonic Combustion Ramjet. Diferentemente dos motores convencionais usados em aeronaves, os scramjets não utilizam turbinas ou compressores mecânicos. Eles operam com a compressão do ar atmosférico gerada pelo movimento do próprio veículo em alta velocidade, permitindo que a combustão aconteça com o fluxo de ar ainda em regime supersônico.
A temperaturas extremas geradas pelo atrito com o ar nessa faixa de velocidade, que podem ultrapassar milhares de graus Celsius na superfície do veículo, são necessárias mudanças nos materiais e sistemas de proteção térmica, além de motores distintos dos utilizados em aeronaves comuns.
No desenvolvimento do 14-X, o hidrogênio é utilizado como combustível e o oxigênio é capturado diretamente da atmosfera. Essa abordagem reduz significativamente o peso do veículo e melhora sua eficiência durante voos em alta velocidade.
Nomeado em homenagem ao 14-Bis, a aeronave emblemática pilotada por Alberto Santos-Dumont em seus famosos voos em 1906, o projeto vem sendo realizado desde 2007 no Instituto de Estudos Avançados (IEAv), localizado em São José dos Campos (SP), um centro renomado no Brasil para pesquisas sobre propulsão hipersônica e materiais para altas temperaturas.
Esse projeto foi idealizado como um demonstrador tecnológico e tem como meta servir como protótipo para um veículo aéreo não tripulado (VANT), visando fortalecer a autonomia do Brasil nas áreas aeroespaciais e de defesa.
Um marco importante deste programa ocorreu em dezembro de 2021 durante a Operação Cruzeiro no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Nesse evento, o demonstrador 14-X S foi lançado utilizando um Veículo Acelerador Hipersônico (VAH), baseado no foguete brasileiro VSB-30, projetado para alcançar a velocidade necessária para ativar o motor scramjet.
Conforme informações do DCTA, durante os testes, o demonstrador atingiu altitudes superiores a 30 quilômetros e alcançou aproximadamente Mach 6, percorrendo cerca de 200 quilômetros ao longo do ensaio.
O principal propósito era validar os sistemas aerodinâmicos, estruturais e de propulsão do veículo sob condições reais de voo, além de coletar dados essenciais para aprimorar as etapas futuras do programa.
A equipe envolvida também está focada na integração do sistema RATO-14X (Rocket Assisted Take-Off), um foguete auxiliar projetado para fornecer impulso inicial necessário para que o veículo atinja velocidades nas quais o scramjet pode ser acionado.
A expectativa é que as próximas fases do sistema expandam as capacidades operacionais do demonstrador e possibilitem testes em velocidades, altitudes e distâncias ainda mais elevadas.
A partir de janeiro de 2024, as tecnologias hipersônicas passaram a fazer parte oficialmente da estratégia industrial do governo federal com a introdução da política Nova Indústria Brasil (NIB), que define missões estratégicas visando fortalecer setores considerados vitais para a soberania tecnológica nacional.
Dentre os objetivos estabelecidos até 2033 está precisamente o desenvolvimento de uma plataforma nacional para voo hipersônico, considerada prioritária para áreas como defesa, exploração espacial e indústria aeronáutica.
É importante destacar que embora frequentemente seja referido como “míssil hipersônico”, o 14-X não se configura como um armamento operacional; trata-se de um demonstrador tecnológico destinado à validação da capacidade nacional para desenvolver veículos capazes de operar em velocidades hipersônicas com futuras aplicações nos sistemas defensivos e aeroespaciais.
No cenário atual, apenas Estados Unidos, Rússia, China e Índia possuem programas avançados dedicados à pesquisa ou implementação operacional das tecnologias hipersônicas, reconhecidas como estratégicas tanto no setor defensivo quanto na engenharia aeroespacial contemporânea.
No momento, o programa encontra-se na fase de desenvolvimento dos motores scramjet e já conta com investimentos estimados em R$ 93 milhões por parte da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
O primeiro voo completo deste demonstrador está agendado para acontecer no primeiro semestre de 2027; essa fase é considerada crucial para validar as tecnologias desenvolvidas ao longo quase duas décadas de pesquisa intensa.








