Uma característica curiosa sobre o comportamento da espécie de cobra píton despertou a atenção de cientistas. O resultado pode ser animador para pesquisas de mecanismos para combater a obesidade.
A píton é conhecida por conseguir engolir presas grandes, realizando o processo digestivo da vítima, que, muitas vezes, é o dobro ou até mais do seu próprio peso. Esse aspecto levou pesquisadores da Stanford Medicine, na Califórnia, e da Universidade do Colorado, em Boulder, ambas nos Estados Unidos, a observarem detalhadamente o metabolismo envolvido na digestão dessas serpentes. E, como resultado, descobriram que um metabólito imita o efeito do Ozempic e Wegovy em ratos.
O trabalho foi publicado na revista científica Nature Metabolism. Os cientistas verificaram que a concentração de uma molécula, chamada pTOS, aumenta mil vezes no sangue de pítons-birmanesas (Python bivittatus) após uma grande refeição. Quando aplicada em camundongos obesos, faz com que os roedores rejeitem rações e percam peso.
E justamente esta molécula ocorre naturalmente em humanos. Assim, em cinco dos seis conjuntos de dados coletados a partir do sangue de voluntários, os níveis de pTOS estavam elevados depois da alimentação, mas apenas em cerca de duas a cinco vezes.
Porém, algumas pessoas se comportaram de maneira mais semelhante a uma cobra do que outras. Um homem, por exemplo, apresentou aumento de mais de 25 vezes no pTOS após uma refeição, atingindo concentrações sanguíneas comparáveis às de uma píton.
Ao longo do estudo, a equipe de pesquisadores examinou o sangue de pítons-birmanesas jovens, pesando entre 1,5 e 2,5 kg, antes e após uma refeição que correspondia a cerca de 25% do seu peso corporal. Na natureza, as pítons-birmanesas podem ficar de 12 a 18 meses sem comer; as serpentes de laboratório não foram alimentadas por 28 dias seguidos.
A equipe descobriu que o pTOS surge a partir da deterioração da tirosina (aminoácido presente na proteína alimentar) por bactérias no intestino. O tratamento das pítons com antibióticos antes da alimentação eliminou o aumento dos níveis de pTOS associado à alimentação.
“Conseguimos desvendar uma via metabólica na qual o pTOS é produzido após uma refeição, por meio do metabolismo da tirosina no intestino e no fígado. Também descobrimos que ele segue para uma região do cérebro chamada hipotálamo, um conhecido regulador da homeostase energética. Lá, ele ativa neurônios envolvidos na regulação do comportamento alimentar. Obviamente, não somos serpentes. Mas talvez, estudando esses animais, possamos identificar moléculas ou vias metabólicas que também afetam o metabolismo humano”, destacou o pesquisador Jonathan Long, professor associado de patologia e membro do Instituto de Neurociências Wu Tsai, em comunicado.
Pista a seguir
O achado, segundo os cientistas, não significa que certamente surgirá um novo medicamento para humanos perderem peso. Porém, pode ser uma pista. “Estamos entusiasmados em aprender com essas cobras e outros animais ‘extremos’ para inspirar descobertas futuras”, acrescentou Long.








