O mistério da ilha espectral que fascina cientistas há mais de um século e meio

Por mais de 130 anos, uma ilha conhecida como Sandy Island, com cerca de 25 quilômetros de extensão, foi registrada em mapas e bases cartográficas digitais, incluindo plataformas como o Google Earth. Localizava-se supostamente entre a Austrália e a Nova Caledônia, no Mar de Coral.

No entanto, em 2012, uma equipe de cientistas australianos realizou uma expedição na área onde a ilha deveria estar e fez uma descoberta surpreendente: não havia ilha.

A primeira menção à Sandy Island data de 1876, quando um navio baleeiro chamado Velocity, que voltava do Sul do Oceano Pacífico, relatou ter avistado uma faixa de areia ao noroeste da Nova Caledônia. Esse relato histórico foi utilizado posteriormente por diretórios náuticos australianos.

Em 1881, essa suposta terra apareceu em mapas europeus e, desde 1908, foi incorporada a registros cartográficos internacionais variados.

Mapa histórico representa a Sandy Island. Créditos: Tumblr/ reprodução

As cartas náuticas indicavam que Sandy Island tinha aproximadamente 25 quilômetros de comprimento e 5 quilômetros de largura, o que equivale a uma área um pouco maior que a ilha de Manhattan, em Nova York.

Com o passar do tempo, a falta de evidências levou alguns serviços hidrográficos a rotular a ilha com a sigla ED (Existence Doubtful), utilizada para indicar dúvidas sobre a existência de uma formação geográfica. Vários barcos passaram pelas coordenadas atribuídas à ilha sem nunca vê-la.

No início da década de 1970, levantamentos realizados pelo serviço hidrográfico francês não encontraram evidências da presença da ilha na região.

A geocientista Maria Seton, da University of Sydney e líder da expedição científica de 2012, explicou que o erro sobre a existência da Sandy Island foi perpetuado durante o processo de digitalização do World Vector Shoreline Database (WVS), um banco de dados originalmente desenvolvido pela agência geoespacial das Forças Armadas dos Estados Unidos para finalidades militares e depois liberado para uso civil.

No Google Earth, Sandy Island era representada como uma mancha escura sem imagens satelitais que corroborassem sua existência.

A confirmação definitiva ocorreu durante uma missão do navio australiano RV Southern Surveyor, que realizou uma expedição científica com duração de 25 dias focada no estudo da evolução tectônica do leste do Mar de Coral. Durante essa missão, foram coletadas amostras de rochas e realizados levantamentos do fundo oceânico.

Os mapas utilizados pelos cientistas mostravam profundidades superiores a mil metros na área indicada como ocupada pela ilha, o que levantou questionamentos sobre essa discrepância. Ao chegarem às coordenadas registradas para Sandy Island, os pesquisadores encontraram apenas oceano aberto com profundidade de 1.400 metros e nenhuma formação rochosa visível nas proximidades.

Os resultados dessa investigação foram divulgados em 2013 na revista científica Eos. Após essa publicação, plataformas como Google e National Geographic removeram oficialmente Sandy Island dos seus mapas.

Os pesquisadores também notaram que as coordenadas atribuídas à ilha coincidem com uma rota natural onde se transportam jangadas compostas por pedra-pomes — rochas vulcânicas leves que podem flutuar devido às bolhas de ar em sua estrutura. Esse fenômeno pode criar “ilhas flutuantes” temporárias.

Acredita-se que o erro tenha surgido devido ao avistamento de uma vasta massa cinza-clara composta por pedra-pomes entre Fiji, Nova Caledônia e Austrália, região onde esse fenômeno é frequentemente observado.

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