Silêncio em risco: o impacto oculto do crescimento dos data centers no Brasil

O Brasil se consolidou como o principal centro de data centers na América Latina, contando com 205 unidades em funcionamento, o que representa 42,1% do total de instalações na região, conforme dados do Data Center Map divulgados em 2026.

Data centers são estruturas industriais dedicadas ao armazenamento, processamento e transmissão de dados por meio de grandes servidores e sistemas de nuvem. Esses locais abrigam equipamentos variados, incluindo redes, sistemas de captação de energia e refrigeração.

Para maximizar o espaço e a eficiência do resfriamento, os equipamentos são dispostos em estruturas metálicas chamadas racks. Além disso, switches e roteadores garantem a conexão entre os servidores e a internet.

Como essas instalações não podem ser desligadas, utilizam geradores a diesel e sistemas de alimentação ininterrupta (UPS/nobreaks), que asseguram que os servidores permaneçam ativos mesmo em caso de falhas na rede elétrica.

A intensa demanda por processamento gera calor significativo, necessitando assim de sistemas de refrigeração que incluem ventiladores para manter a temperatura adequada dentro dos centros. Isso resulta em um ambiente sonoro que opera 24 horas por dia, sete dias por semana. O ruído contínuo gerado por milhares de componentes funcionando simultaneamente é caracterizado por frequências baixas que podem variar conforme o projeto das instalações.

Telhado de um data center com torres de resfriamento e geradores de emergência. Créditos: Wikimedia commons

Os sons produzidos pelos ventiladores, chillers e compressores criam vibrações constantes e um zumbido persistente. Já os geradores de emergência emitem ruídos mais intensos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a poluição sonora como um sério risco ambiental. A exposição prolongada pode estar ligada a distúrbios do sono, desconforto contínuo, prejuízos cognitivos, problemas auditivos e questões cardiovasculares como hipertensão e doenças cardíacas isquêmicas.

Para prevenir efeitos adversos à saúde relacionados ao ruído noturno, a OMS recomenda que os níveis sonoros fora dos quartos não ultrapassem 40 dB(A) em média durante a noite.

No contexto dos data centers, o nível sonoro pode atingir cerca de 96 decibéis.

A expansão do setor é impulsionada por novos investimentos em infraestrutura na Região Metropolitana de São Paulo e no interior do estado. Empresas como Equinix, Scala, ODATA e Ascenty estão ativamente operando ou desenvolvendo grandes instalações na região; um exemplo notável é o campus localizado em Vinhedo, considerado pela empresa como o maior campus de data centers da América Latina.

Esse complexo abriga dois data centers com uma capacidade energética significativa que ultrapassa dezenas de megawatts.

A dinâmica do ecossistema paulista se estende para cidades como Barueri, Santana de Parnaíba, Sumaré e Hortolândia, além de outras localidades próximas a importantes corredores logísticos.

A proximidade entre usuários e servidores impacta diretamente na latência, reduzindo o tempo necessário para a transmissão dos dados pela rede.

No Nordeste brasileiro, está sendo desenvolvido um ambicioso projeto associado à Omnia e à ByteDance – controladora do TikTok – no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em Caucaia (CE). Com estimativas que podem chegar até R$ 200 bilhões em investimentos, essa iniciativa está vinculada a um acordo para fornecimento contínuo de energia renovável.

Os data centers que utilizam energia limpa – especialmente proveniente da fonte eólica – enfrentam duas formas invisíveis de poluição: o ruído constante dos sistemas internos e o som mecânico das usinas geradoras. Esse barulho já foi associado a problemas como insônia, estresse e dores de cabeça nas comunidades vizinhas além da perda auditiva.

  • Leia também: “Síndrome da turbina eólica”: um estranho fenômeno de saúde tem afetado seres humanos, diz Fiocruz – Revista Fórum

Além dos impactos à saúde humana, o som produzido por essas instalações pode prejudicar a fauna local. Animais próximos não conseguem escapar dos ruidosos infrassons emitidos continuamente.

Um exemplo disso ocorreu em Nashville (EUA), onde um zoológico fez uma campanha contra a construção de um data center próximo aos seus animais. Eles argumentaram que o ruído poderia interferir no comportamento saudável das espécies sensíveis como leopardos e girafas.

A poluição sonora também afeta aves e desregula os ritmos circadianos dos animais locais, resultando em privação do sono e aumento da ansiedade semelhantes aos efeitos observados nos humanos.

Conforme apontado pelo Noise Pollution Clearinghouse, as legislações atuais sobre zoneamento frequentemente são antiquadas para lidar com as especificidades acústicas dessa indústria ativa 24 horas por dia. Portanto, estudos rigorosos sobre impacto sonoro devem ser realizados antes da aprovação de novas construções segundo orientações do Instituto de Estudos Ambientais e Energéticos (EESI).

Nos próximos anos espera-se que a demanda global pela Inteligência Artificial (IA) resulte em investimentos trilionários. A capacidade global atual para armazenamento deve aumentar substancialmente – passando dos 115 GW atuais para mais de 240 GW até 2030.

No Brasil, o avanço das infraestruturas é evidente no interior do país. Em Rio de Janeiro, por exemplo, a Equinix inaugurou seu complexo RJ3 com um investimento aproximado de R$ 500 milhões visando expandir as operações relacionadas à nuvem e IA no estado. No sul do país, especificamente em Eldorado do Sul no Rio Grande do Sul, a Parks Data Centers também alocou R$ 500 milhões para novas instalações críticas.

Para fortalecer as vantagens competitivas brasileiras neste setor crescente, o governo federal lançou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), oferecendo incentivos fiscais que visam diminuir os custos envolvidos na instalação desses centros no Brasil além da promoção da expansão das energias solar e eólica.

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