Monoculturas agrícolas no Brasil: o preço alto do lucro

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, em parceria com a Embrapa e a Universidade Estadual de Ponta Grossa, estima que o Brasil tenha perdido aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas de carbono armazenadas nas camadas superficiais do solo devido à conversão de vegetação nativa em lavouras de agricultura intensiva e pastagens para gado.

Essa pesquisa analisou a perda acumulada de carbono e o impacto da expansão agropecuária no Brasil com base em 272 estudos publicados ao longo de três décadas e em dados de 4.290 amostras de solo coletadas em diversas regiões e biomas do país. O estudo também investigou como diferentes tipos de uso agrícola afetam a perda de carbono dos solos.

O carbono é essencial para os processos ecológicos, contribuindo para aumentar a fertilidade natural dos solos, a retenção de água e a atividade microbiana, fatores fundamentais para sustentar a biodiversidade e a qualidade do solo para cultivos.

Segundo a pesquisa, publicada na revista Nature Communications, as camadas superficiais do solo brasileiro, até 30 centímetros de profundidade, já liberaram até 5,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) devido às atividades intensivas da agropecuária, o que equivale a duas vezes todas as emissões do país em um período de dois anos.

A conversão de áreas naturais em campos para a agricultura e a pecuária resultou nessa perda de carbono. Entre 1985 e 2022, foram conquistados 41,9 milhões de hectares para a agropecuária no Brasil, concentrados principalmente em monoculturas de soja e cana-de-açúcar.

A remoção de vegetação nativa acelera o processo de decomposição orgânica, resultando na devolução da matéria orgânica antes retida no solo para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, principal fator do efeito estufa.

O estudo buscou identificar como diferentes sistemas de produção agropecuária afetam os estoques de carbono, que são difíceis de serem medidos. Os resultados mostram que a monocultura é a mais problemática, com impactos significativos no solo. Esse tipo de técnica é baseado no cultivo contínuo de uma única espécie em grandes extensões de terra, visando principalmente a produtividade para exportação.

Embora a agricultura intensiva seja um dos pilares do agronegócio brasileiro, contribuindo significativamente para o crescimento do PIB nacional, o impacto da monocultura no solo é alto, refletido no chamado “custo social do carbono”. Esse indicador global avalia o dano econômico causado pela emissão adicional de CO2.

Segundo estimativas, o custo econômico pode chegar a até US$ 185 por tonelada adicional de carbono. As emissões liberadas devido à conversão de vegetação nativa nas últimas décadas podem representar bilhões de dólares em danos climáticos globais.

As técnicas de sistemas integrados de produção agropecuária, como o ILP (Lavoura-Pecuária) e o ILPF (Lavoura-Pecuária-Floresta), que combinam cultivos e pastagens de maneira rotacional, mostram menores perdas de carbono em comparação com a vegetação nativa. A recuperação de pastagens degradadas e a integração entre sistemas de produção podem ajudar a reverter parte dessa perda contínua de carbono.

Mesmo com suas vantagens econômicas, a monocultura contínua pode levar à degradação do solo e torná-lo mais suscetível a problemas, exigindo alto uso de agroquímicos. Estratégias de rotação e consorciação de culturas, embora menos lucrativas, mostram benefícios a longo prazo para a produtividade do solo e sua resiliência.

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