A proliferação discreta dos fungos que desafiam a ciência

A batalha mundial contra infecções enfrenta um novo desafio que vai além das conhecidas superbactérias: os fungos que se tornaram resistentes a medicamentos.

Um grupo de 50 especialistas, sob a liderança do professor Paul Verweij, que atua na área de micologia clínica na Holanda, lançou um apelo na publicação Nature Medicine. Eles buscam enfrentar o que Verweij descreve como um “surto silencioso” que ocorre fora da atenção pública.

Em entrevista à emissora pública americana NPR, o professor destaca: “Tomemos como exemplo a Candida auris [um fungo capaz de provocar infecções graves e frequentemente resistente a tratamentos] — é essencial implementar rigorosas medidas de controle em hospitais. Precisamos de diagnósticos precisos, controle efetivo de infecções e acompanhamento dos pacientes, mas isso é algo que não está disponível em muitos países em desenvolvimento“. Ele completa: “Há pessoas morrendo sem sequer saber que têm uma infecção fúngica. Muitas vezes, ninguém percebe se estas são resistentes ou não“.

Uso indiscriminado de fungicidas e suas consequências

Paul Verweij aponta que a origem desse fenômeno alarmante está no uso excessivo de defensivos agrícolas. Ele explica que, sem os fungicidas, as colheitas poderiam sofrer uma redução na produtividade de até 40%. Contudo, essa proteção traz altos custos para a saúde humana.

“Os fungicidas possuem estruturas químicas muito semelhantes às dos antifúngicos usados em humanos. Isso faz com que os fungos desenvolvam resistência aos agentes químicos aplicados nas lavouras e também compromete a eficácia dos azóis utilizados na medicina”, detalha o professor. Ele observa que este é um “efeito colateral indesejado”, dado que os fungos que afetam as plantas não são os mesmos responsáveis pelas doenças humanas.

A transmissão não requer contato direto com as plantações, uma vez que os esporos se dispersam pelo ar. “Os fungos filamentosos liberam esporos no ambiente, permitindo sua propagação por longas distâncias. Acredita-se que esses esporos possam até alcançar correntes de jato na alta atmosfera e viajar entre continentes. Inalamos esses esporos constantemente”, explica Verweij.

Desafios no desenvolvimento de novos antifúngicos

No campo médico, o desafio é considerável devido às características biológicas desses organismos. “Os fungos são semelhantes às células humanas, tornando difícil encontrar um tratamento eficaz contra eles sem afetar as células humanas também. Nos últimos 75 anos, apenas cinco classes de antifúngicos foram desenvolvidas, sendo os azóis as mais relevantes”, esclarece.

O pesquisador lamenta: “O problema surge quando você não pode utilizar uma dessas classes; muitas vezes sobra apenas uma opção. Isso já tem gerado complicações sérias. Por exemplo, se o fungo estiver afetando o cérebro, as opções terapêuticas são extremamente limitadas“.

A resistência aos antifúngicos já está refletindo em perdas humanas significativas e acentuando desigualdades globais em saúde. Verweij menciona um estudo realizado na Holanda que mostrou uma diferença de 20% nas taxas de mortalidade entre infecções tratáveis e infecções resistentes: “Isso representa um impacto substancial”, afirma ele. A situação é ainda mais crítica em países com economias emergentes.

Apesar da gravidade do problema, a comunidade científica vê uma oportunidade à vista após os fungos terem sido incluídos na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) como patógenos prioritários em 2022. Para mudar essa realidade, especialistas pedem que novos defensivos agrícolas sejam submetidos a avaliações sobre seu impacto na saúde humana. No entanto, Verweij ressalta a dificuldade em obter financiamento para essas iniciativas básicas: “Precisamos estabelecer ferramentas básicas, implementar vigilância e estruturar redes laboratoriais para estudar os fungos, mas conseguir recursos para isso muitas vezes é um desafio”.”

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