O Egito, que abriga vastas extensões de desertos que representam até 96% de seu território, está se preparando para revolucionar a agricultura e o manejo de água nas regiões do Vale dos Reis, localizadas na margem oeste e no Delta do Rio Nilo.
Intitulado Novo Delta, esse ambicioso projeto de infraestrutura foi idealizado pelo governo do presidente Abdel Fattah al-Sisi. Sua meta é abastecer uma área superior a 9.200 km², um espaço aproximadamente seis vezes maior que São Paulo.
Com um investimento estimado em cerca de 800 bilhões de libras egípcias (aproximadamente US$ 15 bilhões), o plano visa ampliar as áreas cultiváveis, revitalizar estações de tratamento de água e estabelecer canais de bombeamento para garantir a irrigação das plantações.
O principal intuito é aumentar a produção local de alimentos, diminuindo assim a dependência de importações, especialmente em relação a produtos fundamentais como trigo e milho, que são pilares da agricultura egípcia.
A recuperação das áreas afetará os governorados de Matrouh, Beheira, Giza e Fayoum, onde serão implementadas diversas iniciativas. Uma delas é o Future of Egypt, considerado o projeto agrícola mais significativo dentro desse complexo, com a finalidade de reabilitar cerca de 441 mil hectares dentro da extensão do Novo Delta.
Um dos aspectos mais notáveis desse empreendimento é a infraestrutura destinada ao transporte de água para as novas zonas agrícolas. Isso inclui uma rede de canais, tubulações, estações de bombeamento e instalações de tratamento. Um destaque é um conduto artificial com 114 quilômetros projetado para conduzir água proveniente da drenagem agrícola desde áreas do antigo Delta até a estação de tratamento em Al Hammam.
Esse rio artificial utilizará água que anteriormente era descartada no Mediterrâneo e agora será capturada, transportada e tratada antes da sua reutilização na irrigação.
No coração deste sistema está a estação de tratamento em Al Hammam, capaz de processar grandes quantidades de água residual; em 2024, essa instalação recebeu pelo menos quatro prêmios do Guinness World Records, incluindo o reconhecimento como a maior estação de tratamento em capacidade no mundo e também como a maior em termos de área construída.
Conforme informações do Ministério da Defesa do Egito, essa estação ocupa mais de 320 mil metros quadrados e tem uma capacidade operacional estimada em cerca de 86,8 metros cúbicos por segundo para água reutilizada.
Além disso, o Canal do Futuro do Egito, com aproximadamente 41 quilômetros destinados ao fornecimento hídrico das áreas agrícolas do projeto, possui uma capacidade diária para fornecer cerca de 10 milhões de metros cúbicos d’água e foi projetado para aumentar a área cultivável na região desértica.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) ressalta que a limitação da disponibilidade das terras irrigadas é um dos principais obstáculos à expansão da agricultura no Egito. O Banco Mundial também aponta desafios estruturais como escassez hídrica, segurança alimentar e mudanças climáticas enfrentados pelas chamadas “old lands”, áreas tradicionais do Vale onde a urbanização tem pressionado o sistema hídrico existente.
A nova extensão agrária prevista no Novo Delta deve adicionar cerca de 15% à base cultivável atual do país. De acordo com estimativas da FAO, o Egito poderá precisar importar até 13,5 milhões de toneladas de trigo na safra comercial 2026/27, um volume cerca de 8% superior à média histórica.
Em agosto de 2026, reportagens indicaram que mais de 82% do trigo importado pelo Egito nos primeiros seis meses daquele ano tinha origem na Rússia e na Ucrânia. Esses volumes têm sido drasticamente impactados pela guerra entre os dois países, afetando assim toda a cadeia logística.
Segundo as autoridades egípcias, essa iniciativa voltada à revitalização da capacidade agrícola deverá gerar mais de cinco milhões de empregos diretos e indiretos ao longo do processo.








