Na última segunda-feira (27), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou uma proposta para a inclusão da PrEP injetável de longa duração no Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento em foco é o cabotegravir, que foi autorizado pela Anvisa em 2023 e deve ser administrado a cada dois meses, diferentemente da versão oral disponível no SUS, que exige ingestão diária. A solicitação foi encaminhada à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) para uma avaliação programada para agosto; o ministro Alexandre Padilha destacou que “inovação sem acesso é injustiça”.
Proposta do Ministério da Saúde para PrEP injetável
O anúncio foi feito em uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, antes da abertura oficial do evento, com a presença do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e do diretor da Opas, Jarbas Barbosa. A proposta inclui a análise científica e econômica do cabotegravir pela Conitec, que avaliará evidências sobre sua eficácia clínica e os custos associados à sua eventual inclusão no SUS.
Com respaldo científico já demonstrado no Brasil, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP está conduzindo ensaios clínicos com o cabotegravir. Os resultados obtidos até o momento indicam uma proteção extremamente alta contra o HIV. Essa nova forma de PrEP injetável representa um avanço considerável em relação à versão oral: ao invés de um comprimido diário ou sob demanda, os pacientes receberiam uma aplicação a cada dois meses.
Justificativa e impacto dessa iniciativa
Segundo Alexandre Padilha, a adoção de novas tecnologias voltadas para a prevenção é uma resposta às necessidades reais do sistema de saúde. Ele afirmou: “O Brasil deseja incorporar novas opções na prevenção do HIV para ampliar as alternativas disponíveis e atender pessoas que têm dificuldade em manter a adesão ao uso diário dos medicamentos”. A adesão à PrEP oral tem se mostrado um dos principais desafios para sua eficácia, e uma aplicação bimestral pode facilitar o acesso para determinados grupos populacionais.
O ministro também enfatizou que a inclusão de inovações tem seus limites relacionados ao custo. Ele mencionou uma tentativa anterior de negociar o lenacapavir, outra opção de PrEP injetável administrada semestralmente, com a empresa Gilead. Apesar da disposição do Brasil em pagar até dez vezes mais que países com economias semelhantes, não houve acordo.
“Não aceitamos preços estratosféricos. Inovação sem acesso é injustiça.”
A postura do governo reflete-se na avaliação da Conitec, que considera critérios técnicos, científicos e econômicos em suas análises, além das condições de acesso à população. O caso do lenacapavir ilustra as dificuldades enfrentadas quando essa equação não é atendida; mesmo aprovado pela Anvisa em janeiro deste ano, o medicamento ainda não faz parte do SUS nem está disponível no setor privado devido a impasses relacionados ao preço.
Cenário da prevenção ao HIV no Brasil
A proposta surge em um contexto onde o Brasil apresenta avanços significativos na luta contra o HIV. Em 2025, o país foi reconhecido pela OPAS/OMS como tendo eliminado a transmissão vertical do vírus como um problema de saúde pública, tornando-se o único país continental a alcançar tal feito. Para isso, foi necessário manter a taxa de transmissão vertical abaixo de 2% e garantir menos de 0,5 casos por mil nascidos vivos entre crianças; isso foi alcançado com cobertura superior a 95% em serviços de pré-natal e tratamento para gestantes vivendo com HIV.
Além disso, o Ministério da Saúde registrou uma diminuição de 13% nas mortes decorrentes da aids em 2024 comparado ao ano anterior, reduzindo os óbitos de 10 mil para 9,1 mil. Nos últimos três anos, houve um aumento de 100% na oferta de testes rápidos para HIV pelo SUS. Atualmente disponível no SUS, a PrEP oral visa proteger indivíduos não infectados mas em risco; caso aprovada pela Conitec, a versão injetável ampliaria as opções disponíveis com uma alternativa bimestral mais acessível para aqueles que enfrentam dificuldades na adesão à medicação diária.








