O hábito diário de tomar café passou por mudanças significativas nos últimos anos. Um estudo contínuo sobre o consumo de café no Brasil, desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) em conjunto com o Instituto Axxus, revela uma transformação desde 2019. Enquanto anteriormente a ênfase recaía sobre a quantidade e a lealdade às marcas tradicionais, o período atual (2025-2026) reflete uma mudança para a busca de custo-benefício e uma valorização dos cafés especiais.
Os dados mais recentes indicam que o consumo interno de café no Brasil caiu 2,31% em 2025, totalizando aproximadamente 21,4 milhões de sacas. O principal fator dessa redução está relacionado ao aumento significativo nos preços: nos últimos cinco anos, o custo do grão verde subiu mais de 200%, resultando em um aumento acumulado de 116% nos preços praticados nas prateleiras dos supermercados.
O aumento nos preços se traduziu na diminuição do consumo. De acordo com a pesquisa, em 2019 apenas 7% da população brasileira relatava ter diminuído sua ingestão de café; já em 2025, essa porcentagem subiu para 24%. Outro aspecto importante é que houve um crescimento no número de consumidores que optaram por trocar suas marcas habituais por opções mais acessíveis, com esse índice dobrando desde 2023 e alcançando 39% dos entrevistados.
A alta nos preços impactou também as visitas a cafeterias, cuja frequência despencou de 51% para 39%. Como consequência, os brasileiros têm incrementado o hábito de saborear café em casa.
A ascensão dos cafés especiais
A pesquisa da ABIC evidencia um cenário promissor para os cafés especiais. Enquanto o consumo do café tradicional se estabilizou ou diminuiu, o apelo por grãos certificados teve um crescimento expressivo. Em 2024, registrou-se um impressionante aumento de 85% no número de novos produtos na categoria “Especial”, mostrando que essa classe já não é restrita apenas a cafeterias sofisticadas. Hoje é comum encontrar marcas premiadas nas prateleiras dos supermercados, atraindo a curiosidade dos consumidores pelos rótulos que descrevem notas sensoriais específicas (como frutadas e achocolatadas) e selos que garantem pureza e sustentabilidade.
Celírio Inácio, diretor executivo da ABIC, acredita que esse crescimento no mercado de cafés especiais está diretamente ligado à transformação do café de uma commodity para um produto com maior valor agregado. Isso é impulsionado pela diferenciação sensorial, pela origem dos grãos, pelos métodos produtivos e pela crescente demanda por rastreabilidade e práticas sustentáveis ao longo da cadeia produtiva.
Para o ano atual, as expectativas são de estabilidade no setor. Com a chegada de uma safra robusta prevista para 2026, a ABIC acredita que a volatilidade dos preços deve diminuir, permitindo assim que o consumo deixe de cair.
A indústria agora concentra esforços na educação do consumidor: demonstrar que investir em cafés das categorias “Superior” ou “Gourmet” proporciona uma experiência sensorial superior e vale a pena mesmo em tempos econômicos difíceis. A pesquisa revelou que muitos consumidores carecem de informações: cerca de 48% desconheciam as diferenças entre os tipos tradicionais, extrafortes, superiores, gourmet e especiais. “Estamos diante de um mercado em crescimento com potencial para democratizar à medida que melhoramos a clareza e acessibilidade da comunicação,” afirma Celírio.
Novos métodos além do coador
Ainda que o café coado (seja pelo pano ou filtro) continue sendo preferido por metade da população brasileira por razões afetivas e econômicas, os dados da ABIC mostram um crescente interesse por outras formas de preparar essa bebida tão popular.
Dentre as novas tendências nos lares brasileiros estão a Cafeteira Italiana – ou Moka – que tem conquistado adeptos entre aqueles que preferem cafés mais intensos e apreciam não utilizar filtros descartáveis.
A prensa francesa também vem ganhando popularidade entre os consumidores que buscam um café mais encorpado e valorizam o ritual envolvido na preparação. As cápsulas mantêm sua relevância como símbolo de praticidade para as classes A e B, apesar da queda nas vendas de 16,8% em 2025 devido aos altos preços.








