No ano de 1978, pneus com concreto foram parar no oceano, mas não por engano: era um projeto que, 50 anos depois, mudaria a vida do oceano

Em 1978, milhares de pneus preenchidos com concreto foram instalados no fundo do mar na costa de Massachusetts, nos Estados Unidos. A ação não foi por acaso nem foi algum tipo de descarte irregular. A iniciativa fazia parte da criação de um recife artificial para oferecer estrutura e abrigo à vida marinha em uma área predominantemente arenosa no oceano.

Quase cinco décadas depois, o local continua sendo utilizado como habitat por diversas espécies e é monitorado pela Massachusetts Division of Marine Fisheries (DMF), órgão responsável pela gestão dos recifes artificiais do estado.

Segundo a DMF, o Yarmouth Artificial Reef foi o primeiro recife artificial autorizado em Massachusetts. O local tem aproximadamente 127 acres e fica a mais de 2 milhas ao sul da foz do Bass River.

De acordo com um documento técnico da própria divisão, cada unidade original do recife era formada por três a cinco pneus preenchidos com concreto e presos em feixes. Aproximadamente 1.500 unidades foram instaladas em 1978 e outras 1.000 em 1994, totalizando cerca de 2.500 unidades.

O que aconteceu com os pneus?

As estruturas permaneceram no fundo do mar e passaram a fornecer superfícies e espaços de abrigo para organismos marinhos.

A própria DMF explica que o recife foi projetado para aumentar o chamado relevo do fundo, criando estruturas verticais e espaços entre elas, em uma região com pouca complexidade estrutural. O objetivo era favorecer peixes e invertebrados associados a esse tipo de habitat.

A colonização das estruturas também ocorre ao longo do tempo. Em uma atualização publicada em 2020, a DMF explicou que recifes artificiais passam por diferentes estágios de colonização e sucessão ecológica à medida que envelhecem, podendo se aproximar de um habitat natural estruturado.

O que a ciência encontrou

Este estudo foi publicado em 2020 na revista científica Estuaries and Coasts. Assinado por Simonetta Harrison e Mark Rousseau, da Massachusetts DMF, o trabalho comparou o recife de Yarmouth, criado em 1978, com um recife artificial mais jovem, um recife natural e uma área de fundo arenoso sem estrutura.

Os pesquisadores utilizaram câmeras subaquáticas remotas com iscas para comparar riqueza de espécies, diversidade, abundância e estrutura etária de peixes de importância econômica.

O estudo encontrou diferenças associadas à idade e ao tipo de habitat. Nas observações realizadas entre junho e setembro de 2019, os peixes foram registrados mais rapidamente nos recifes artificiais do que na área de fundo arenoso sem estrutura.

O recife de Yarmouth, o mais antigo analisado, também apresentou maior abundância de peixes do que o recife artificial mais jovem.

A experiência de Yarmouth continuou depois da instalação dos pneus. Em 2019 e 2020, o órgão acrescentou 2.210 jardas cúbicas de material ao recife, ampliando uma área de habitat marinho estruturado.

Entre os materiais empregados mais recentemente estão concreto, granito e outros elementos provenientes de obras e equipamentos que deixaram de ser utilizados.

O projeto também incluiu monitoramento com mergulhadores e equipamentos de sensoriamento remoto para acompanhar a composição das espécies e a colonização das novas estruturas.

Hoje, a lista oficial de espécies observadas no recife inclui garoupa preta, tautoga, linguados, lula, mexilhão-azul e lagosta, além de espécies como o tubarão-tigre-da-areia e diferentes tipos de cação-espinhoso.

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