Perigo à mesa: toxina de peixe ignora cozimento e provoca aumento de 60% nas intoxicações

No Rio Grande do Norte, um aumento significativo dos casos de intoxicação está relacionado a uma toxina presente em peixes, que não altera o cheiro, sabor ou aparência do alimento. Até 11 de junho de 2026, o estado registrou 141 ocorrências de ciguatera, um crescimento de 60,2% em comparação às 88 notificações do ano anterior.

Esse aumento alarmante levou a Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) a emitir um alerta sobre a proliferação da doença. A ciguatera resulta da ingestão da ciguatoxina, uma neurotoxina que se acumula em certas espécies de peixes marinhos.

Um dos principais desafios na prevenção é a dificuldade em identificar peixes contaminados, uma vez que a toxina não provoca alterações perceptíveis no alimento. Não há odor desagradável, alteração na coloração ou sabor distinto. Além disso, o cozimento, congelamento ou salga não elimina a toxina.

Isso implica que métodos como fritar, assar ou cozinhar não garantem a segurança do peixe que já contém ciguatoxina. O congelamento também não elimina o perigo associado ao consumo desse tipo de pescado.

Casos fatais relacionados à toxina em peixes

Desde 2022, foram registradas 259 notificações ligadas à ciguatera no Rio Grande do Norte, distribuídas em 46 surtos diferentes. Entre esses casos, pelo menos 113 foram confirmados e outros 89 estão sob investigação; além disso, dois óbitos ocorreram durante esse período.

Esses dados fazem parte do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), utilizado pelo Sistema Único de Saúde para monitorar doenças e situações relevantes à saúde pública.

O levantamento revelou que 59,3% das notificações envolvem mulheres. Entre os adultos afetados, aqueles com idades entre 20 e 59 anos correspondem a 61,95% dos registros.

A maior parte das intoxicações (cerca de 64%) ocorreu após o consumo de peixe em casa. Os restaurantes e outros locais comerciais foram responsáveis pelos 36% restantes das notificações.

A cidade de Natal concentra 52,21% das notificações por município. Em seguida estão Touros (24,78%), Ceará-Mirim (12,39%), Nísia Floresta (5,31%), Parnamirim (3,54%) e Extremoz (1,77%).

Espécies de peixes associadas às intoxicações

A espécie mais frequentemente relacionada aos casos investigados no estado é a bicuda ou barracuda, mencionada em 51 casos e representando 45,13% das confirmações.

Outras espécies citadas nas notificações incluem arabaiana, dourado, cioba, pescada-branca, galo-do-alto, pargo, sirigado e robalo.

Entretanto, a presença dessas espécies na investigação epidemiológica não indica que todos os exemplares estejam contaminados ou que seu consumo resulte necessariamente na doença. O risco está associado à presença da ciguatoxina acumulada ao longo da cadeia alimentar marinha.

Peixes maiores e carnívoros tendem a concentrar quantidades mais elevadas da toxina ao se alimentarem de organismos menores já contaminados. Além disso, cabeças, vísceras e ovas podem apresentar concentrações mais altas da substância.

A Prefeitura de Senador Georgino Avelino fez um alerta à população para ter cuidado com peixes como barracuda, arabaiana, pescada-branca e dourado; recomenda-se também evitar o consumo de cabeças e vísceras desses animais.

Sintomas podem durar meses

Os primeiros sinais da ciguatera podem surgir minutos após a refeição ou até mesmo após um intervalo de até 48 horas. Os sintomas iniciais costumam incluir dor abdominal intensa, náuseas e diarreia.

No entanto, essa intoxicação pode impactar o sistema nervoso central. Os sintomas relatados englobam coceira intensa no corpo todo, fraqueza muscular e dormência nos lábios e extremidades.

Um sintoma notável é a alteração na percepção térmica: um indivíduo pode sentir frio onde há calor e vice-versa.

Segundo informações do Guia de Mudanças Climáticas para Profissionais de Saúde do Ministério da Saúde, essa intoxicação pode ainda ocasionar redução dos batimentos cardíacos e queda na pressão arterial.

Embora os sintomas gastrointestinais geralmente desapareçam primeiro, os efeitos neurológicos podem se prolongar por semanas ou até meses em alguns casos raros.

Orientações em caso de suspeita

Aqueles que apresentarem sintomas após consumir pescado devem buscar atendimento médico imediatamente e informar qual peixe foi ingerido bem como onde ele foi adquirido ou servido. É importante também relatar quanto tempo passou entre a refeição e o início dos sintomas.

Caso possível, é essencial guardar informações sobre a origem do alimento consumido; esses dados são cruciais para as equipes responsáveis pela vigilância sanitária identificarem outros possíveis casos expostos à contaminação.

Nenhum teste caseiro consegue determinar se um peixe contém ciguatoxina. A aparência fresca ou preparo adequado não garantem ausência do risco associado à intoxicação.

A crescente quantidade de notificações ocorre em meio a outros alertas sobre riscos relacionados ao consumo de pescado. Recentemente foi destacado o perigo da toxina encontrada no baiacu que causa outro tipo grave de intoxicação.

No caso específico da ciguatera, as orientações das autoridades são para adquirir peixes apenas de fornecedores regulamentados e estar atento aos alertas locais; além disso é fundamental buscar assistência médica ao manifestar qualquer sintoma suspeito após o consumo desses alimentos.

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