O fenômeno natural conhecido como El Niño costeiro, que provoca o aquecimento recorrente das águas do Oceano Pacífico, está sendo exacerbado pelas mudanças climáticas. Relatos de meteorologistas indicam um superaquecimento significativo na zona costeira entre o Peru e o Equador.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) revelou que as temperaturas oceânicas na área denominada Niño 1+2, situada no Pacífico Leste, próximo à costa sul-americana, têm apresentado anomalias preocupantes.
Conforme dados do índice ONI (Oceanic Niño Index), as temperaturas nessa região superaram 2,1°C. Esse aumento é um indicativo de que as águas do Pacífico têm estado aquecidas desde novembro de 2023, quando o último evento de El Niño começou a se mostrar mais intenso do que o habitual.
A Oscilação Sul, a qual refere-se ao fenômeno do El Niño, resulta de mudanças nas temperaturas da superfície e nos ventos do Pacífico tropical. Embora seja um evento recorrente, sua manifestação pode ser irregular.
As alterações resultantes no comportamento dos ventos e das correntes marítimas podem modificar os padrões de precipitação em diversas partes do planeta, com impactos variados conforme a localização.
Normalmente, os ventos que sopram de leste para oeste deslocam as águas quentes do Pacífico em direção à Oceania e à Ásia, permitindo que águas mais frias subam em direção à costa da América do Sul — um processo conhecido como ressurgência. Isso resulta na concentração de água quente nas proximidades da costa sul-americana e altera os padrões de chuva.
No Sul do Brasil, a presença do El Niño tende a provocar aumento nas chuvas; já nas regiões Norte e Nordeste, observa-se uma redução na precipitação e períodos prolongados de seca. Nas áreas Centro-Oeste e Sudeste, pode haver diminuição das chuvas em certas localidades e um aumento nas temperaturas, elevando a demanda no setor elétrico.
A intensificação do aquecimento global faz com que esse fenômeno se torne ainda mais severo, levando águas excessivamente quentes ao Pacífico Leste, impactando negativamente o continente sul-americano.
Recentemente, há cerca de um mês, a anomalia no Pacífico Leste estava em torno de +1,3°C. Contudo, em pouco tempo essa temperatura saltou para +2,1°C, chamando atenção dos centros internacionais responsáveis pelo monitoramento climático.
Ao contrário do El Niño clássico — que se caracteriza por um aquecimento persistente em uma vasta área do Pacífico Central e Leste — o El Niño costeiro tem um impacto mais localizado. Isso geralmente resulta em consequências mais acentuadas para a costa ocidental da América do Sul.
Historicamente, o Peru se destaca como um dos países mais suscetíveis aos efeitos desse fenômeno. Durante o intenso El Niño costeiro de 2017, o país enfrentou inundações e deslizamentos que resultaram em centenas de mortes e prejuízos econômicos estimados em bilhões de dólares, conforme relatórios da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
A partir de 2026, a NOAA introduziu uma nova ferramenta para aprimorar o monitoramento climático: o indicador RONI (Relative Oceanic Niño Index). Este índice foi desenvolvido após cientistas identificarem limitações no método tradicional ONI devido ao acelerado aquecimento global e mede a diferença entre a temperatura atual do Pacífico e uma média climatológica fixa calculada ao longo de 30 anos.
Análises recentes apontam que os oceanos tropicais estão se aquecendo globalmente — e com maior rapidez — como resultado das mudanças climáticas geradas pelas emissões de gases estufa.
As previsões meteorológicas sugerem que as temperaturas das águas próximas ao Peru e ao Equador podem continuar a subir nas próximas semanas.
Isso implica uma alteração potencial na circulação atmosférica tropical em escala global, trazendo consequências ainda mais severas para a costa sul-americana.
No Brasil, os impactos típicos do El Niño clássico são geralmente percebidos na Região Sul, onde há um aumento das chuvas e maior incidência de tempestades. No entanto, os efeitos do El Niño costeiro podem variar significativamente. Portanto, será necessário acompanhar como esse aquecimento acentuado influenciará o sistema pluviométrico nacional nos meses vindouros.








