Em setembro, três acadêmicos da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), localizada em Santa Catarina, iniciarão uma expedição internacional destinada a explorar uma das áreas menos investigadas do fundo do Oceano Atlântico, que se estende entre o Nordeste brasileiro e a costa ocidental africana.
Nomeada “The Gap”, a expedição é coordenada pelo professor José Angel Alvarez Perez, da Univali, e conta com a colaboração de pesquisadores de várias instituições e países. O foco da pesquisa será a biodiversidade e as condições oceanográficas da Zona de Fratura Romanche, uma formação tectônica que abrange quase dois mil quilômetros no Oceano Atlântico Equatorial, onde as profundezas podem alcançar cerca de 7.800 metros abaixo da superfície marítima.
O navio R/V Falkor (too), pertencente ao Schmidt Ocean Institute, será o meio utilizado para as investigações. As atividades começam em 17 de setembro e estão programadas para se estender até 26 de outubro de 2026.
A equipe brasileira é composta pelos pesquisadores José Angel Alvarez Perez, Flávia Masumoto e Lucas Gavazzoni.
Com partida marcada para Fortaleza (CE), o R/V Falkor (too) seguirá rumo à cidade de Tema, em Gana. A viagem terá duração estimada de 42 dias, durante os quais os cientistas irão realizar estudos em trechos específicos da Zona de Fratura Romanche.
Durante a missão, será empregado o robô ROV SuBastian, capaz de operar em profundidades de até 4.500 metros. Esse robô permitirá observar o fundo oceânico, capturar imagens em alta definição, coletar organismos vivos, rochas, sedimentos e amostras de água para ajudar na caracterização dos habitats estudados.
A estrutura submarina está ligada à Dorsal Mesoatlântica, uma vasta cadeia montanhosa formada ao longo de milhões de anos devido ao deslocamento das placas tectônicas e à expansão do leito oceânico que ocorreu com a separação gradual do Atlântico.
A Zona de Fratura Romanche não apenas abriga vales e áreas profundas, mas também possui formações do relevo submarino que podem ser analisadas para entender melhor a dinâmica da formação do oceano e as condições das correntes profundas.
O principal objetivo é estudar como a interação entre as características do fundo marinho, as correntes oceânicas, as massas d’água e a disponibilidade alimentar afetam a distribuição da vida nas profundezas e criam um ambiente propício para as comunidades bentônicas.
Pesquisas anteriores indicam que esta área serve como uma das principais rotas para o transporte da Água de Fundo Antártica (AABW) em direção ao Atlântico Oriental. Esses movimentos são cruciais para a ecologia das águas profundas, pois as correntes desempenham um papel vital no transporte de calor, oxigênio, nutrientes e partículas orgânicas além de redistribuir sedimentos.
Antes que o robô desça ao fundo marinho, a equipe utilizará os sistemas acústicos do Falkor (too) para elaborar mapas detalhados da região. Isso facilitará a identificação prévia de vales, encostas, cristas rochosas e outras características relevantes para definir os locais exatos dos mergulhos.
As amostras coletadas durante a expedição serão enviadas aos pesquisadores das instituições envolvidas para análises morfológicas dos organismos e estudos sobre os tecidos coletados, água ou sedimentos utilizando técnicas avançadas como análise genética e DNA ambiental.
A missão faz parte do programa Challenger 150, apoiado pela Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. O Schmidt Ocean Institute ressalta que os dados obtidos poderão ser fundamentais na avaliação de áreas que podem ser classificadas como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis (VMEs).








