O que um dia foi uma praia vibrante, repleta de ruas movimentadas, quiosques e casas de veraneio, agora se transforma em escombros submersos. O distrito de Atafona, situado no município de São João da Barra, no estado do Rio de Janeiro, enfrenta um grave processo de erosão marinha que perdura há sessenta anos. Recentemente, o problema se agravou devido a ressacas intensas, onde as ondas chegaram a medir cerca de três metros. A Defesa Civil Municipal permanece em alerta máximo.
Desde os anos 60, o avanço do Oceano Atlântico ultrapassou 500 metros em direção ao continente, resultando na perda de aproximadamente 15 quarteirões e na destruição de mais de 500 construções. Entre elas estão o icônico Hotel Julinho, o edifício do Julinho Bar e o antigo posto de saúde da localidade. Por conta disso, o distrito ganhou o apelido de “Atlântida brasileira” e está reconhecido pela ONU como uma das 31 áreas mais vulneráveis do planeta frente à elevação do nível do mar.
Um estudo divulgado pela organização em 2024 revelou que entre 1990 e 2020, a região já registrou uma elevação do mar de 13 centímetros, com previsões apontando para um aumento adicional de 21 centímetros até 2050. Durante episódios de ressacas severas, o nível do mar avançou até 20 metros em um único evento, deixando um rastro de destruição em casas e vias.
O avanço das águas: causas e consequências
Pesquisadores das universidades Estadual do Norte Fluminense (UENF) e Federal Fluminense (UFF) acompanham há anos essa questão. As análises indicam que a combinação entre fatores naturais e ações humanas é responsável pelo avanço das águas em Atafona.
Segundo Eduardo Bulhões, geólogo da UENF com especialização em dinâmica costeira, o principal responsável pela erosão é a escassez no balanço dos sedimentos devido à modificação no fluxo do Rio Paraíba do Sul.
No passado, esse rio despejava grandes quantidades de areia na foz em Atafona, ajudando a proteger a costa contra as ondas. Contudo, a construção de barragens para usinas hidrelétricas e a captação excessiva de água ao longo do rio reduziram significativamente tanto o volume hídrico quanto a quantidade de sedimentos que chegavam à sua desembocadura.
Sem essa barreira natural que dissipava a energia das ondas, estas atingem diretamente a costa com grande força. Além disso, o aquecimento global e as mudanças climáticas têm contribuído para um aumento acelerado no nível médio dos oceanos, resultando em ressacas cada vez mais frequentes e violentas.
“Atafona representa um sistema dinâmico na foz de um grande rio. Quando diminuímos o fornecimento natural de sedimentos do Paraíba do Sul, o oceano começa a ‘buscar’ esse material por conta própria”, explica Gilberto Pessanha, geólogo especializado em erosão costeira na região norte fluminense. “Sem areia suficiente para equilibrar sua energia, as ondas acabam removendo areia da própria praia e das dunas próximas.”
Discussões sobre contenção e perspectivas futuras
A construção de estruturas como espigões rochosos ou o alargamento artificial da faixa costeira são algumas das propostas discutidas por órgãos governamentais e especialistas ambientais. No entanto, os altos custos envolvidos e os possíveis impactos negativos sobre o meio ambiente requerem estudos detalhados sobre viabilidade.
Enquanto soluções efetivas permanecem sob análise nas esferas municipal, estadual e federal, os habitantes de Atafona observam diariamente como a linha do horizonte se aproxima cada vez mais de suas residências. Eles documentam as transformações enfrentadas pela comunidade diante da natureza implacável. Os testemunhos são impactantes.
João de Deus é um aposentado que viveu toda sua vida em Atafona. Ele compartilha como as mudanças na paisagem afetaram sua saúde mental e situação financeira: “Perdi duas casas para as águas nos últimos anos.” Em depoimento ao documentário local “Atafona: O Mar que Levou”, ele expressa seu desespero ao ver seu patrimônio familiar sendo destruído: “O mar não avança pedindo licença… Acordamos com o barulho das ondas batendo nas paredes; quando percebemos já não há mais estrutura.” Hoje ele vive com a sensação constante de que “o oceano é quem manda aqui”.
A comerciante Maria das Graças também compartilha sua experiência; proprietária de um quiosque que precisou ser deslocado três vezes para evitar danos maiores. Em entrevista ao portal regional Folha da Manhã ela lamenta: “Atafona era o destino ideal para férias na região Norte e Noroeste Fluminense. Ver tudo isso se desmoronando é doloroso; não são apenas paredes que estão indo embora; são memórias da nossa infância.” Para ela e muitos outros moradores locais, cada ressaca traz consigo uma nova onda de ansiedade.








