Aprovação de projeto por ruralistas acelera bloqueio de fiscalizações ambientais do Ibama

Deputados ruralistas aprovaram o pedido de urgência para um projeto de lei que prejudica as fiscalizações ambientais feitas pelo Ibama e reduz o combate ao desmatamento ilegal. De autoria do deputado Lucio Mosquini (MDB-RO), o PL 2564/2025 veda a imposição de embargos em áreas de degradação ambiental se a infração for registrada por monitoramento remoto.

A aprovação do pedido foi feita durante sessão na Câmara dos Deputados desta segunda-feira (16).

Na prática, o projeto impede a atuação do Ibama de forma imediata para combater o desmatamento ilegal. Com a proposta, o órgão fiscalizador fica obrigado a notificar previamente o responsável e garantir prazo para manifestação antes de aplicar sanções e multas.

Com o monitoramento remoto, o Ibama realiza um cruzamento de dados com imagens de satélite e documentações que comprovam ou não a permissão para a supressão de vegetação. Quando a degradação ambiental ilegal é confirmada, o órgão emite punições e abre um processo para contestação do produtor rural. Esse sistema possibilitou que o Ibama batesse recorde de fiscalizações sobre o desmatamento ilegal.

No entanto, o deputado Lucio Mosquini defende que o sistema utilizado pelo Ibama pune de forma inadequada os fazendeiros. Para ele, os acusados sofrem o embargo sem ter direito de se defender previamente.

“Uma eventual limitação dessas tecnologias reduziria a capacidade de atuação em larga escala, aumentando custos operacionais, ampliando a dependência de ações presenciais e comprometendo a cobertura territorial da fiscalização. Seria um tapete vermelho estendido ao crime. Além disso, criaria uma possível inconstitucionalidade material, na medida em que comprometeria a efetividade do dever estatal de proteção ambiental previsto no art. 225 da Constituição Federal”, afirmou a entidade.

Também resposta à tramitação do projeto, a Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA-Nacional) publicou uma nota em que alerta para o perigo que a proposta representa à proteção ambiental.

De acordo com os servidores, o projeto confunde medidas cautelares essenciais para interromper danos ambientais em curso com sanções antecipadas, o que compromete a atuação preventiva do Estado.

Em relação ao enfraquecimento do monitoramento remoto, a Ascema afirma que ao inviabilizar embargos baseados nesses instrumentos, “o projeto compromete diretamente a capacidade operacional dos órgãos ambientais, especialmente em regiões como a Amazônia, onde o acesso físico é limitado e os alertas de desmatamento são massivos”.

“Com apenas 752 agentes de fiscalização no Ibama e um volume superior a 100 mil alertas do DETER na Amazônia apenas nos últimos 24 meses, a exigência de fiscalização e notificação exclusivamente presenciais é materialmente impossível”, diz a entidade.

À Fórum, a cientista em mudanças climáticas Luciana Gatti considerou o projeto um “absurdo” e afirmou que o que os deputados “estão decidindo significa a morte de muitos mais brasileiros em eventos extremos”.

Ela ainda declarou que o sensoriamento remoto é tão eficaz quanto ir uma equipe ao local e que o que os parlamentares querem com a proposta é “praticar crimes ambientais na esperança de que o governo os perdoe”. “Esses caras são sempre anistiados pelo roubo de terras públicas”, lamentou.

Related Posts

Nove em cada dez municípios do Brasil enfrentaram desastres climáticos desde 1991

Mais de 91% das cidades brasileiras registraram ao menos um desastre climático entre 1991 e 2024, segundo um levantamento realizado por pesquisadores do Cemaden, da USP e do Inpe. O estudo analisou 59.658 ocorrências de inundações, alagamentos, enxurradas, deslizamentos, tempestades e secas. Os episódios deixaram pelo menos 4.774 mortos, 3.031 desaparecidos e 129,7 milhões de […]

Expedição revela nova espécie rara em uma das regiões mais inóspitas do Atlântico

Uma expedição científica realizada em uma das regiões menos exploradas do Oceano Atlântico conseguiu registrar, pela primeira vez, imagens em vídeo de um peixe-barril (Winteria telescopa) vivo em seu habitat natural. O registro foi divulgado pelo instituto após uma expedição de 35 dias, realizada entre 17 de maio e 20 de junho de 2026, na […]