O desejo de apreciadores de vinho de estreitar a relação com a terra e com a origem do que consomem começa a ganhar força no Brasil. Trata-se de um conceito chamado “terroir living”, que tem como proposta unir moradia e enoturismo à produção artesanal de rótulos próprios, permitindo que os moradores desses espaços sejam ativos em todo o processo vitivinícola: do manejo das parreiras à escolha dos blends de suas garrafas.
Em outras palavras, o terroir living traz o conceito de que o habitat do vinho passa a ser também o espaço residencial, criando um ecossistema imersivo onde arquitetura, paisagismo e vitivinicultura convivem harmonicamente.
A inspiração remonta aos pioneiros “condomínios de vinhedos” que surgiram no início dos anos 2000 em regiões consagradas, como o Vale do Uco, em Mendoza (Argentina), e trechos de Napa Valley (EUA) e Bordeaux (França).
Projetos inovadores, como o The Vines of Mendoza, foram fundamentais para consolidar esse formato globalmente ao permitirem que amantes do vinho adquirissem parcelas de vinhedos e elaborassem rótulos customizados sob a supervisão de enólogos renomados, sem a necessidade de gerenciar uma infraestrutura agrícola complexa.
Já no Brasil, tem ganhado expressão em projetos que combinam o resgate histórico e a vitivinicultura de precisão. Um dos principais exemplos é o Vinhas da Invernada, desenvolvido na histórica Fazenda São Simão, em Itupeva, região próxima à Serra do Japi (SP). Com altitude favorável e microclima propício para o cultivo de uvas finas, o empreendimento integra moradias de campo a um vinhedo comunitário e privativo.
O projeto prevê que os moradores acompanhem desde a poda até a colheita, participando diretamente da criação de vinhos autorais orientados por enólogos.
“O conceito de terroir living vai além do simples ato de morar perto da natureza. Trata-se de proporcionar ao residente uma imersão real na cultura do vinho, onde o proprietário vivencia o ciclo da parreira na sua própria rotina e engarrafa a história da sua família em um rótulo exclusivo”. explica Guilherme Sahade, investidor e idealizador do Vinhas da Invernada.
As experiências de Minas e Santa Catarina
Na região de Bom Sucesso, Sul de Minas Gerais, o conceito se materializa no Vivert Reserva da Mata, empreendimento que abriga uma estrutura residencial integrada à Vinícola Alma Gerais. Ela permite que os condôminos tenham parcelas de vinhedos à disposição para criar seus próprios blends.
O avanço desse modelo atrai quem busca aliar investimento imobiliário à paixão pela enologia. De acordo com Roberto Sahade, empresário e sócio do projeto, “o mercado de luxo e o enoturismo mudaram de patamar. O consumidor não busca mais apenas comprar uma garrafa pontuada, mas quer ser o protagonista daquela safra. A união entre urbanismo sustentável e vitivinicultura de alto padrão atende exatamente a essa demanda por experiências autênticas e memórias perenes.”
Mais ao Sul, Santa Catarina também desponta como um polo importante para o terroir living. A vinícola Villaggio Grando, localizada em Água Doce, nos campos de altitude do oeste catarinense, anunciou a expansão de sua propriedade para criar um condomínio-vinícola com hotelaria boutique.
A proposta aproveita o terroir frio da região para oferecer aos futuros moradores a vivência direta em meio aos mais de 30 hectares de vinhedos já consolidados da propriedade.








